Mariana Pinto / 8.ºano
Menção honrosa no Concurso Nacional Uma Aventura… Literária 2022

Na casa situada no meio do monte, onde todos os nasceres e pores do sol são únicos, moro eu.
A minha casa não é muito grande e tem um aspeto antigo, ainda que não aparente a idade que tem. Esta casa de tinta cor de areia, que já foi branca, está há muitos anos na minha família e nunca perde a sua beleza e mistério. Todos os dias, posso encontrar coisas novas no seu interior, desde fotos, pinturas, cartas e até livros.
Apesar de, exteriormente, parecer antiquada, por dentro é bem diferente. Quando lá entro, deparo-me com a entrada toda pintada de branco como a neve, decorada com um bengaleiro e algumas plantas. À esquerda, a mesa de jantar redonda, feita de madeira de pinho, bem no centro de uma sala retangular bastante espaçosa. Seguindo em frente, encontro a cozinha com tudo o que é preciso: fogão, forno, microondas, etc. Se optar ir pela direita, vou ter à sala de estar, que tem um sofá preto como o breu, encostado a uma das suas paredes e, em frente a este, uma televisão e estantes com livros. Ao lado desse sofá, encontra-se uma porta que dá acesso aos quartos, três no total. Quando a abrimos, percorro um extenso corredor, em que, de um lado, estão janelas e, do outro, quatro portas, uma casa de banho e os tais quartos.
Esta casa foi sendo modificada de geração em geração, ainda assim conserva objetos que, mesmo após tantas mudanças, passaram despercebidos aos olhos dos mais atentos.
Apesar de tudo o que de bom ela me pode oferecer, aquilo de que mais gosto é do jardim. Ele parece mágico! É grande e sem praticamente mais nada a não ser a relva verde, uma árvore alta, com a sua copa a dar sombra, no meio daquele terreno solarengo, e um pequeno lago de águas cristalinas, onde se encontram alguns peixinhos dourados.
Eu gosto de estar debaixo da árvore a ler, a pintar e a apreciar a natureza, principalmente o som dos passarinhos que chilreiam alegremente nos seus ninhos, sobre a imensa copa verde.
Uma tarde, estava eu aí a deleitar-me com mais um livro, porém chegava ao fim a leitura das suas últimas páginas. Então, decidi partir à descoberta de outro, nas estantes da sala, em vez de o requisitar na biblioteca da escola. Não era a primeira vez que eu vasculhava essas estantes à procura de algo novo, mas era sempre mal sucedida, pois já tinha lido todos os livros que ali se encontravam. Não tinha muita esperança, apesar de ter o constante pressentimento de que ali havia o que nunca tinha visto. Percorri com o meu olhar uma das estantes, continuando a ver as mesmas lombadas, os mesmos títulos, os mesmos livros!
Porém, repentinamente, um deles caiu para trás dessa estante. Para conseguir alcançá-lo, pois ela era alta, com livros até ao chão, retirei os demais da prateleira inferior. Eis senão quando me deparei com um diferente, de capa de tecido preta e de folhas amareladas, que parecia bastante gasto. Admirava-me o facto de, em momento nenhum, ter ainda reparado naquela pequena antiguidade. Andei com ele às voltas na minha mão até decidir escolhê-lo para a minha próxima leitura.
Arrumei todos os outros livros, voltei para debaixo da árvore e recomecei a ler. A primeira página dava a conhecer o título do livro, ou melhor, do diário. A partir daquele momento, alguém iria partilhar comigo, página a página, os seus segredos, a sua história. Esse alguém era Amélia, uma rapariga da minha idade, parecida comigo e com os mesmos gostos que eu, cujo diário, seu confidente, ela apelidava de “Árvore”, como se lhe escrevesse cartas.
Ela revelava que a árvore estava lá havia muito tempo, então já devia conhecer os segredos de todos aqueles que iam para ali. Teria, certamente, muito que contar se pudesse falar.
Aquela árvore parecia agora não ser só especial para mim, mas também para outras pessoas.
Ao ler aquele diário, apercebi-me de que não conhecia aquela casa como pensava. Durante esse período de leitura, descobri outros livros escondidos pelos seus antigos donos, livros de que nunca ouvira falar.
Jamais me passaria pela cabeça que um simples diário me revelasse tanto conhecimento, não de matemática ou português, mas sim daquele lugar, daquela casa. Este livro abriu-me caminho para outros até então escondidos, com as histórias de outras pessoas que me fizeram conhecer ainda melhor as mudanças ocorridas naquele lugar. Uma casa simples, com muitos segredos, e uma árvore confidente deles todos.
A partir desse dia, resolvi começar um diário para que, no futuro, alguém o encontre, o leia e continue a falar desse lugar e das mudanças que ele já sofreu ao longo dos tempos. Mas, acima de tudo, para que esse alguém continue aprendendo com os erros do passado, agora presente.
Mariana Pinto / 8ºano




