O espelho do mundo real, para o mundo cinematográfico
O homem, imperfeito na sua essência, persiste nos erros cometidos no passado até à atualidade, sem demonstrar perspetiva de melhoria num futuro próximo. Esta razão leva-nos a crer que a tensão racial não cessará com o tempo nem com a incansável luta decorrente há inúmeras gerações. Mas que não se tenha este combate como um movimento irrelevante. Felizmente, este culminou numa das mais importantes conquistas históricas dos direitos civis dos indivíduos negros, a aprovação da Lei do Direito ao Voto. No entanto, a legitimidade desta lei nem sempre se verificou quando a comunidade negra a tentava exercer.
É neste enquadramento que o filme “Selma, A Marcha da Liberdade” desenvolve a sua ação. Esta obra cinematográfica norte-americana da autoria de Ava DuVernay retrata de maneira autêntica e pormenorizada o movimento liderado pelo ativista Martin Luther King Jr., em 1965.
Aquando da liderança do Presidente Lyndon B. Johnson e, exercendo um poder opressor, embora lícito, milhares de pessoas posicionaram-se e reuniram-se contra a segregação racial e pela defesa dos valores e direitos humanos numa marcha com início na cidade de Selma até Montgomery, no Alabama.
A grandiosidade do filme passa pelo seu argumento equilibrado que reúne a representação do contexto social da época, com um poderoso toque dramático e sobretudo humano, sem desviar a atenção da história primordial.
Um dos mais significativos e elogiosos aspetos positivos deste filme é a singularidade da personagem principal. Interpretado por David Oyelowo, Martin Luther King ganha protagonismo ao longo de todo o filme na representação simultânea da sua vida íntima e daquela à qual dedicou inteiramente, a luta pelos direitos dos afro-americanos nos Estados Unidos da América. A atitude discriminatória das forças policiais, não impediu Luther King, modelo de virtude de um líder cívico, de utilizar a veemência do seu discurso como ferramenta de mobilização dos seus ouvintes. As pessoas identificavam-se e reviam as suas dificuldades e lutas diárias nas frases incisivas e poderosas do orador.
É, contudo, possível identificar certos aspetos negativos. Embora as diversas cenas se ajustem fielmente à realidade, trazendo uma maior autenticidade ao filme, por vezes o ritmo lento das mesmas provoca um efeito contrário ao rever a violência e medo vividos.
Em suma, podemos considerar “Selma, Marcha da Liberdade” um drama histórico que aborda eficazmente um evento que marca a história pela sua complexidade e que cumpre de maneira competente a sua função fundamental de sensibilização da opinião pública mundial para a causa afro-americana.
A luta pelos Direitos Civis:
A história de Martin Luther King Jr.
O filme “Selma, A Marcha da Liberdade” retrata a vida de Martin Luther King Jr., dedicada à luta pela igualdade dos Direitos Humanos e pelo direto de voto dos afrodescendentes. O filme é dirigido por Ava DuVernay e tem David Oyelowo como o ator principal. A atuação de Oyelowo é impressionante e consegue capturar a essência e a paixão de King.
Utilizando apenas a sua voz e recorrendo a manifestações pacíficas, Martin Luther King consegue mobilizar uma causa, a fim de convencer a população americana e o Presidente em função, na altura, a implementar uma lei que permitia aos afrodescendentes ter o seu direto de voto. No filme, o procedimento de alcance ao ato eleitoral é representado de uma forma bastante credível, conseguindo perceber as diferentes emoções que as personagens sentiam. Como por exemplo, um momento em que todos os protestantes queriam agir de uma forma violenta, após terem sido atacados pela polícia numa das suas manifestações pacíficas, mas Martin Luther King Jr. conseguiu manter uma postura de líder e tomar decisões de “cabeça fria”, conseguindo assim assegurar a credibilidade da sua causa e a principal característica dos seus protestantes, a serenidade nos momentos de protesto.
A meu ver, o filme é uma importante contribuição para a compreensão da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e o seu impacto na sociedade americana conseguindo, assim, mostrar a brutalidade da opressão racial e a importância da luta pela igualdade e justiça. No geral, “Selma, A Marcha da Liberdade” é um filme emocionante e oferece uma visão importante da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, tornando-se numa homenagem aos heróis anónimos que lutaram pela igualdade e justiça.
A Marcha da Liberdade
“Selma, A Marcha da Liberdade” é um filme americano de 2014, do género drama biográfico-histórico, realizado por Ava DuVernay e escrito por Paul Webb. Baseia-se nas marchas de Selma a Montgomery liderada por James Bevel, Hosea Williams, Martin Luther King Jr. e John Lewis, no ano de 1965. O filme tem como protagonistas David Oyelowo (Martin), Tom Wilkinson (presidente Lyndon B. Johnson), Tim Roth (George Wallace), Carmen Ejogo (Corveta) e o rapper e ator Common (Bevel).
O filme teve quatro nomeações aos Globos de Ouro nas categorias de melhor filme dramático, melhor realização, e melhor ator em filme dramático, vencendo apenas o prémio de melhor canção original (Glory – John Legend e Common).
Num breve resumo, podemos dizer que o filme conta a história do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos nos anos 1960, especificamente a história da Marcha de Selma, cidade que dá o nome ao filme.
Na minha opinião, este é um filme poderoso, capaz de nos levar a questionar a realidade à nossa volta e que representa bem a importância da luta (que tem que ser permanente) pelos Direitos do Homem. Fiquei especialmente sensibilizado com a cena da marcha na ponte. Para mim, esta é uma cena chave do filme, como se, só naquele momento, o sofrimento das minorias tivesse adquirido significado e tivesse sido compreendido por todos. Além disso, dá-nos alento e faz-nos acreditar que devemos ter sonhos e que estes podem ser mesmo o início de uma grande mudança e que não devemos ter medo de sonhar!
Penso ser relevante que jovens da minha idade vejam este filme, pois devemos ter consciência que alguns dos direitos que temos hoje, e que damos como básicos ou naturais (a igualdade, a liberdade, o direito ao voto, são só alguns exemplos), demoraram centenas de anos a serem adquiridos e custaram muitas vidas. E, tendo em conta o contexto em que vivemos, nomeadamente a guerra na Ucrânia, acho que este filme se torna incrivelmente atual pois é também um manifesto pela paz.
Por último, recomendo que ouçam também o tema do filme – Glory. Este é, para mim, um hino à liberdade e à igualdade! Ao receber o Oscar de melhor música original, em 2015, Common homenageou uma vez mais Martin Luther King dizendo que “O espírito desta ponte transcende raça, género, religião, orientação sexual e status social.”. Por sua vez, John Legend lembrou que esta “marcha” continua a fazer sentido: “Quando as pessoas marcham ao som da nossa música, nós queremos dizer-vos que estamos convosco, que vos vemos, que vos amamos. E continuem a marchar.”
Um herói numa época de Super-heróis
“Liga da Justiça”, “A Guerra das Estrelas ” e “Os Vingadores” são exemplos de sagas cinematográficas muito famosas onde as personagens principais são super-heróis que ou têm poderes sobrenaturais, ou viajam por várias galáxias, ou até falam com os deuses. São filmes que representam a coragem, a bondade, a humildade e o altruísmo numa só pessoa. Também em “Selma” esse herói é representado, mas com uma ligeira diferença: o herói é tudo menos fictício!
“Selma, A Marcha da Liberdade” é um filme de Ava DuVernay, realizado em 2014, que incide sobre a marcha desde a cidade de Selma até Montgomery, liderada por Martin Luther King Jr. contra a segregação racial e pela defesa dos direitos da comunidade negra nos Estados Unidos da América. Esta longa-metragem, nomeada para vários Óscares, retrata a difícil vida do ativista durante o período das manifestações a favor do direto ao voto da comunidade negra. Estas revoltas, no sul dos Estados Unidos, levaram a que o defensor dos direitos humanos sofresse ameaças e até presenciasse um tiroteio contra os seus apoiantes.
Ao contrário dos filmes anteriormente mencionados, “Selma” provoca no espectador um sentimento de compaixão para com a comunidade negra, vítima da segregação racial não só pela comunidade “branca, mas também pelas forças. policiais e políticas da época.
Ava DuVernay constrói uma ação fiel à realidade, onde todos os pontos fulcrais do filme estão de acordo com os dados históricos, os quais contrastam com uma ficção de realização significativa para a ação, apresentando um equilíbrio perfeito entre as duas vertentes, promovido pelas transições e elementos secundários, estes últimos cruciais para a estabilidade da atenção do espectador. Melhor dizendo, o facto de o filme não se centrar apenas na marcha liderada por Martin Luther King Jr., mas também na sua vida pessoal e nas açãs presidenciais de Lyndon B. Johnson contra o ativista, desperta o interesse do espectador.
Não obstante os pontos positivos citados, o filme apresenta alguns pontos negativos, sendo o principal o ritmo vagaroso que, apesar de não retirar crédito à mensagem que a obra cinematográfica pretende transmitir, gera conversas longas e entediantes que diminuem a qualidade do filme.
Em suma, em “Selma, A Marcha da Liberdade” Martin Luther King é olhado por todos, quer personagens quer espectadores, como um exemplo, mas também como alguém que mostra uma oportunidade de evolução política e social exequível, demonstrando que tudo é possível, mesmo que pareça impossível.




