AEPL, 7 de dezembro 2023.
Peça representada por alunos/atores do Projeto Comunicar no auditório do Salão Paroquial de S. Mamede de Infesta na Festa de Natal

Cena I – 2 galinhas cacarejantes e coscuvilheiras

Cenário antes de abrir cortinas. Ao centro, trono do rei (cadeira revestida de pano “rico”), ladeado de 2 bancos, de 2 Conselheiros. De cada lado do palco, à frente, 2 caixas grandes: biombo/ tribuna /título.
Abrem-se cortinas. Na parede do fundo são projetadas (ppt) 3 imagens do palácio de Sintra, ficando como cenário da Cena I os jardins, com vista exterior do palácio. Entram 2 galinhas avançando lentamente, bamboleando e cacarejando, uma em falsete e outra mais solene, mantendo sempre um registo cómico. Dialogam à boca de cena e jogam “o sério” com o público.

Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Olá, vizinha Miquelina.
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá. Olá, vizinha Sãozinha.
Galinha 1 – O reino hoje está cheio de gente. É a Festa de Natal. Nada de galinha, só perú de Natal.
Galinha 2 – (abanando-se) Até me dá arrepiiiiiios. Nada de galinha, só perú de Natal.
Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Estou a olhar com atenção (mímica, apontam). Há povo e há fidalgos.
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá. E eu estou a olhar com atenção (mímica, apontam). Há damas e há cavaleiros.
Galinha 1 – Vivemos tempos difíceis, Miquelina. Já sabe? O primeiro-ministro demitiu-se!
Galinha 2 – (abanando-se) Até me dá arrepiiiiiios. E o rei vai governar sozinho?
Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Ora o rei nunca trabalhou. Demitiu o Conselho e nomeou 2 Conselheiros.
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá. Este reino vai de mal a pior.
Galinha 1 – Olha a sala do trono. Está vazia. Falta o rei Leandro e os seus conselheiros.
Galinha 2 – E falta a cronista do reino, que tudo observa e tudo sabe.
Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Dizem que escreve muito bem…
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá.E sabe o que é um argumento fundamentado
Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Olha, chegou a cronista do reino. Vamos para o canto observar.
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá. Vamos para o canto observar…
Saem do centro do palco, bamboleando e cacarejando.
Ficam a um canto, atrás de uma caixa-biombo, mas na frente, semi-visíveis e sentadas.

Cena II – Cronista do reino, em modo de relato irónico, narra e escreve a história. Todas as personagens vão entrando em cena…

Na parede do fundo são projetadas (ppt)mais 3 imagens do exterior do palácio de Sintra. Entretanto, entra, devagar, a cronista do rei, fingindo escrever com pena, e rolo de papel, pensando e observando em redor (mímica)…. Inicia a sua história, assim que chega a uma caixa-tribuna e 1 microfone fixo, do lado contrário à entrada em palco, onde se mantém até ao final. Importante: vai comunicar com o público, tipo contadora de histórias. E as personagens vão aparecendo…

Cronista – Sou A cronista do reino, que fique bem claro desde logo. Isso de só o homem ser O cronista, já passou, já era. Agora temos quotas de género e é preciso distribuir, com equidade, todos os cargos do reino. O tempo de Fernão Lopes já lá vai. A mulher ao poder da escrita!
Estou aqui para escrever e narrar uma história. E que tem por base um conto tradicional muiiiiiito antigo, “O Rei vai nu”. É sobre a adulação, o egoísmo e a vaidade. E a incompetência de muitos reis e poderosos, antigos e modernos. Que nada nos governam, antes nos des-governam, como diriam Camões, Vieira, Eça de Queirós e Saramago.
Vou então iniciar a minha história…É a história de “O rei vai nu na Festa de Natal”. O rei Leandro quer que as suas histórias sejam bem escritas. O problema é que o rei não quer a verdade, quando não lhe convém. Nem mentira, nem verdade. É assim, assim (gesto).

CRONISTA, ALFAIATE
Cronista: (gesto de escrever) Era uma vez um alfaiate ambulante que chegou a um reino distante ///
(ENTRADA Alfaiate, com tesoura e fita métrica)
Ora acontece que os alfaiates, que andam de terra em terra, devem evitar misturar-se com as populações locais, e ter o cuidado de não ultrapassar os limites da decência, vigentes em cada lugar.
Porém este alfaiate era pouco dado ao decoro, pelo que depressa se encontrou numa estalagem local, abusando do álcool. /// (Alfaiate aos SS, garrafa na mão e a cantar desafinado canção pimba)…
O alfaiate bebia, bebia, e contava anedotas impróprias de alfaiates, funileiros e outros profissionais, incomodando toda a gente.
Como perturbava tudo e todos, o alfaiate foi preso e foi parar à prisão/// Ora vejam (gesto apontar). (Alfaiate na PRISÃO, cartaz ao alto…)
Ora os bons alfaiates não abundavam no reino…Por isso, assim que soube do sucedido, exatamente a meio de um Conselho, o rei Leandro quis falar com este Alfaiate.
Imaginem! Com um reino com inflação ga-lo-pan-te, o preço da habitação e os juros sempre a subir, e o desemprego sempre a aumentar, como é que o Rei quis falar com o Alfaiate, exatamente a meio de um Conselho do Reino? E logo um Alfaiate finório, como veremos…
Vamos então observar o rei Leandro e os seus dois Conselheiros. Estão a entrar, estão a entrar…

CRONISTA, REI e 2 CONSELHEIROS
Na parede do fundo, são projetadas (ppt)mais 3 imagens do interior do palácio de Sintra, sendo a última a sala do Conselho.
ENTRADA lenta e solene de Rei Leandro a acenar ao público e 2 Conselheiros. Conselheiros a bater cadência com pés, tipo “soldado/tambor”, e Rei a deslizar…. Sentam-se, no trono e 2 bancos, ao centro. Duas? voltas ao centro, antes de se sentarem, para dar tempo ao cronista de narrar.
Cronista: Observem como o Rei Leandro mudou, desde que subiu ao trono.
Tornou-se um rei mimado, preguiçoso e sem juízo. (Pára, gesto de reescrever). Bem, esta frase terá de ser mudada para “Era um rei com muita sabedoria”. É que críticas a reis e a ditadores acabam mal, para quem escreve “. Nem mentira, nem verdade. É assim, assim(gesto).
Bem, com a demissão do primeiro-ministro, o Rei teve de trabalhar pela primeira vez. Demitiu os membros do Conselho, que o criticavam, e nomeou 2 Conselheiros da sua confiança.
Vamos espreitar o 1.º Conselho do Reino, após a demissão do primeiro-ministro (gesto).
(todos já sentados, depois das 2 voltas em palco)

REI LEANDRO, 2 CONSELHEIROS
Rei: Dou início ao 1.º Conselho do Reino, após a demissão do primeiro-ministro, esse ingrato. Declaro aberta a sessão, com os meus dois novos Conselheiros. Falem agora, ou calem-se para sempre. A palava “mal” está proibida, não há nada mal no Reino. Só quero boas novas, nada de desgraças.

1.º Conselheiro: (voz baixa) Caro Rei Leandro, só tenho boas novas, nada de desgraças. A minha proposta é abrirmos um novo shopping, com mercado de Natal para estudantes, às portas da Escola do Padrão da Légua. Com novos jogos digitais de guerra à venda, para matar e ser morto. É mesmo só de brin-ca-dei-ra, é claro que a guerra é uma coisa muito séria. E toda a gente sabe que os estudantes têm de jogar nos intervalos das aulas, é importantíssimo para o seu bem-estar e crescimento intelectual. O problema é que as relações interpessoais é que andam mesmo muito “mal” …
Rei: (zangado) A palava “mal” está proibida! Só quero boas novas, nada de desgraças.
1.º Conselheiro: Perdão, perdão, caro Rei Leandro. Passo a reformular… E com um imposto sobre a venda dos jogos, entra booooom dinheiro nos cofres do Reino. E todos ficam felizes. Porque a guerra é sobretudo um booooom negócio… Os estudantes a jogar// e o Rei a lucrar (2x rap, 2 Conselheiros).
Rei – A tua proposta é ótima. Estás perdoado. Assim, vamos encher os cofres do Reino.
E agora, 2.º Conselheiro, que proposta tens para mim e para o meu reino? E não esqueças. A palava “mal” está proibida! Só quero boas novas, nada de desgraças.
2.º Conselheiro (voz, adocicada, lisonjeadora): Caríssimo Rei Leandro, só tenho boas novas, nada de desgraças. A minha proposta é um novo fato real para Sua Majestade (faz vénia), que é o nosso Rei Sol. Não é que Sua Majestade ande mal vestido…
Rei: (muito zangado) A palava “mal”// está proibida! Só quero boas novas, nada de desgraças. E eu nunca, mas nunca, ando mal vestido…
2.º Conselheiro (ainda mais lisonjeador): Perdão, perdão, caríssimo Rei Leandro (faz vénia, quase até ao chão). Passo a reformular… Na prisão real, está um alfaiate famoso, aclamado como o melhor alfaiate do mundo. Foi condenado, é certo, mas o Rei pode pagar os seus serviços, com o perdão da pena. O próprio Alfaiate já se ofereceu fazer um fato. E assim tem de graça um booooom alfaiate e mais um fato real. É um booooom negócio… O Alfaiate a trabalhar// e o rei a lucrar (2x rap, 2 Conselheiros).
Rei: A tua proposta é ótima. Estás perdoado. Vou ter de graça um booooom alfaiate e mais um fato real. Só quero boas novas, nada de desgraças. 2.º Conselheiro, vai buscar o Alfaiate. (O Conselheiro sai).

CRONISTA, REI, ALFAIATE, CONSELHEIROS e GALINHAS

Cronista: Vou continuar a escrever esta história. Nem mentira, nem verdade. É assim, assim (gesto).(Entrada do Alfaiate, que fica de pé frente ao rei/ de lado no palco, e 2.º Conselheiro, que se senta no seu banco). Mal avistou o Rei Leandro, o finório do Alfaiate apercebeu-se logo que o Rei Leandro era um rei mimado, preguiçoso e sem juízo. E resolveu tirar partido dessas características…
Rei: És tu o alfaiate que foi para a prisão? Disseram-me que te ofereceste para fazer o meu fato real no Natal. É verdade? Se o fizeres, ficarás perdoado e livre da prisão.
Alfaiate: Sim, solicito a Vossa Majestade que me conceda o privilégio de lhe fazer e oferecer um novo fato real. É que trouxe comigo um tecido tão especial e tão fino, que só certas pessoas o conseguem ver…
Exatamente o tipo de pessoas que este reino merece: politicamente corretas, e que não fumem, não bebam, não riam com anedotas sexistas, não vejam demasiada televisão, nem usem todo o dia o telemóvel, não oiçam música pimba e não façam churrascos.
Rei: Tens toda a razão (entusiasmando-se e subindo o tom de voz) Tens toda a razão. São essas as pessoas que este reino merece. São essas as pessoas que terão o privilégio de ver esse tecido es-pe-cial. Porque eu sou es-pe-cial. E vou fazer um cortejo, para todas as pessoas inteligentes do reino poderem admirar o meu fato real, invisível e especial. Vou fazer um cortejo para o povo admirar o meu fato real.
Cronista: Quando o alfaiate anunciou que a sua obra estava terminada, o rei mirou­se ao espelho com as novas vestes (o Rei tira o manto real, aparece de leggings e os Conselheiros aplaudem).
Ali ficou de pé, nuzinho como viera ao mundo. Claro que o rei viu isso mesmo, que estava nuzinho, mas fingiu que conseguia ver o seu fato real, invisível e especial. E, erguendo a cabeça, com um sorriso orgulhoso, o Rei preparou-se para o cortejo, que iria percorrer as ruas do reino.

Cena III – Todas as personagens e Povo


(Na parede do fundo, são projetadas (ppt)mais 3 imagens do exterior do palácio de Sintra, se possível com multidão. O cortejo começa. Abre com o Rei à frente, a seguir os Conselheiros, depois o Alfaiate. Quando a 1.ª volta passa junto à entrada lateral do palco, entra o Povo/ monitores com bandeirinhas e todos dão vivas ao Rei, repetindo 3 vezes: Viva o Rei, //Viva o Rei //Longa vida //ao Rei.

Galinha 1: (no fim da 3ª repetição “Viva o Rei”…) Miquelina, vês algum fato real?
Galinha 2 – Sãozinha, não vejo nenhum fato real. O rei vai nú.
Galinha 1 – Cá-cá-rá-cá. Fala o que eu acho, mas fala baixo.
Galinha 2 – Cá-cá-rá-cá. O rei vai nú.
Povo e Galinhas: O rei vai nú. O rei vai nú. O rei vai nú. (3 vezes)
(1.º O Alfaiate foge do palco, 2.º Os Conselheiros embrulham o Rei no fato antigo e fogem do palco)
Cronista: E esta é a história de “O rei vai nú no Natal”. Que para as galinhas teve uma trágica consequência. É que o Rei Leandro nunca lhes perdoou o grito de “O rei vai nú”, que deitou a perder o cortejo. Por isso, promulgou uma lei a banir o prato tradicional de “Perú de Natal”, e a substituir por “Galinha de Natal”.
2 Galinhas: (Pânico, fogem do palco, a gritar em coro) Fujamos! Cá-cá-rá-cá, eu já não estou cá.
Cronista: Fica um ensinamento para todos nós. Recusem a adulação, o egoísmo e a vaidade. E desconfiem da incompetência de muitos reis e poderosos, antigos e modernos, que só des-governam, e servem os seus apetites, como dizem Camões, Vieira, Eça de Queirós e José Saramago. Nos livros está lá tudo, é só ler //para saber //e aprender. E assim concluo a minha história, ponto final.

AGRADECIMENTO FINAL
(À frente do palco, todos os atores voltam à cena e agradecem, alinhados e fazendo vénia. Atrás, o Povo agradece também. Saem ordenadamente.)

A Coordenadora do Projeto Comunicar,
Maria de Nazaré Castro Trigo Coimbra


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