Para memória futura

Projeto Comunicar

Teatro, Humor e Poesia – A Liberdade é bela!

A história deste teatro com humor tem, por génese, o texto e a sua escrita, em narrativa que decerto não será real nem verdadeira, pois o que se conta é a perceção do que se vive.
O texto foi construído em sessão de oficina de escrita presencial, com dia e hora certa, marcado à coordenadora do projeto comunicar, por iniciativa de três alunos, e não o seu normal contrário, como atestam os mails trocados, abaixo transcritos, contornando esquecimentos de memória curta, fácil de transviar. A coordenadora em causa julgou que facilmente escaparia à canseira do teatro, no terceiro período, ensaiando a ladainha costumeira e assaz conhecida de muito trabalho, pouco tempo, tantas exposições, dia de paragem, sempre de desconfiar, no que toca a professores com meia dúzia de aulas e tempo livre a rodos, só férias, o que andarão eles a fazer nas escolas.
Puro engano, os três alunos, puxando-lhes a índole para o teatro e, particularmente, para o registo cómico, não dispersam nem desarmam, rodeiam os obstáculos, e no dia primeiro de maio atacam a tal ladainha via mail, “Bom dia professora, amanhã às 14:40 podemos fazer a tal reunião consigo, com o Pedro e com o Paulo? Cumprimentos, Rodrigo”. Com resposta suspirada, porém já de expetativa criativa, o desafio ficou selado, “Nesse caso, reunimos em EV. Tragam o computador para cada um escrever. Abraço. N.”
Quando a dita coordenadora chegou à sala, com atraso de uns cinco minutos bem contados, os três alunos estavam já à espera, imaginem!, sentados ombro com ombro, bem juntos no mesmo banco do corredor, mais um normal contrário, pois é voz corrente que aluno à maneira só sabe chegar atrasado, pontualidade é miragem. Novo engano da dita coordenadora, que aí sim, finalmente descodificou acertadamente os presságios de mais trabalho e mais canseira, em mês de maio de bradar a todos os céus. E apreçou cada um dos três alunos, com o seu computador e uma vontade determinada de cumprir a tarefa de “construção da minha personagem”, em oficina de escrita de 3+1, correspondendo as tarefas de resiliência e desassossego à coordenadora, tão só ouvir, orientar, e sobretudo treinar, treinar, treinar, e levar a comédia a bom porto, nada de drama ou tragédia no sarau de 29 de maio, lá se foi a véspera de feriado, tarde com ensaio, noite com público.
Voltamos à narrativa imersa no discorrer das palavras, a realidade é assim, nada é linear, de repente no texto e na vida tudo se complica, impossível destrinçar qual é qual. É ponto assente que o texto foi delineado em sessão de oficina de escrita presencial, a 2 de maio, tal como apetecido pelos três atores, mas primeiro escritores à procura da sua personagem. O ponto de partida consistiu em incorporar o nome próprio do aluno, acrescentando o apelido, dando à luz um retrato, uma caricatura. Os alunos, na assunção do seu papel, foram então transmudados em Rodrigo Bugalho, Pedro Zé Cabra e Paulo Futre. O mais difícil estava feito, tinham nascido as personagens. Ainda incipientes, ainda frágeis.
Agora sim, era possível a cada um escrever uma quadra, de acordo com o seu novo “eu”. Outro engano da coordenadora. Se é custoso a Eugénio de Andrade e poetas quejandos alcançar o Olimpo da criação poética, foge a sílaba, foge o verso, foge a arte, adivinhem três alunos ineptos em versejar, mais uma coordenadora derreada da rotina diária, com oficina de escrita criativa a seguir à interrupção de almoço, o corpo a requerer descanso e o espírito mansidão. Um interregno caiu então sobre o grupo, nem ata nem desata, em pausa que suspendeu o entusiasmo inicial do que ia ser fácil, porém não o era.
Ora bem, usando as tecnologias para desenferrujar o PADDE, de vez em quando, o grupo dos 3+1, por sugestão entusiástica da coordenadora, testou o ChatGPT, nada como parecer moderno. Só podia ser desastre anunciado, melhor ser do que parecer, como o grupo dos 3+1, ou antes quatro, iguaizinhos no engano, depressa descobriram. Sim, o ChatGPT demorou segundos a debitar uma quadra bem rimada, para cada personagem. Mas ou as palavras-chave não estavam de feição, ou a ferramenta precisava de afinamento, tão habituada que anda a copianços e plágios, em testes e trabalhos, suavizando a vida dos estudantes, que o sucesso está ao alcance dos espertos. As quadras saíram rebuscadas, altissonantes, herméticas, pesadas de linguagem, a exigir dicionário pertinaz. E sem vestígios de cómico, ironia ou sátira. Mera questão de tempo e de aprendizagem exponencial, que o ChatGPT dominará em meses, talvez semanas ou dias.
Regressámos à construção artesanal, bem tinha razão Ana Luísa Amaral, o computador engana, a arte poética é criação fugidia. Com todos a darem o seu contributo, três quadras emergiram. E a oficina de escrita ganhou novo impulso, com ritmo mais rápido, todos afincados em continuar, entrevendo nuances, gestos, palavras ditas e por dizer, construindo o cómico de linguagem e de carácter, na teia da interrelação entre as personagens. No dia seguinte, pasme-se a rapidez!, o texto estava à espera no mail da coordenadora, tão célere que parecia impossível, milagre de alunos motivados, empenhados em escrever e representar, e logo atores cómicos, que não riem, com a dificuldade acrescida e séria de fazer rir os outros, em trabalho responsável de grupo.
O texto teatral foi posteriormente sujeito a revisão e reescrita, cumprindo os ensinamentos de Saramago, de que a escrita é reescrita, de personagem à procura do seu texto, contudo o contrário também é verdadeiro, que o digam os três alunos Rodrigo, Pedro e Paulo, escritores e atores, em trabalho colaborativo e muito sério de teatro cómico. Ser cómico é deveras sério, quem disser o contrário não sabe do que fala, suscitar o riso e criticar paixões e vícios humanos não é para todos, com mote ou sem mote, de que é exemplo Gil Vicente. E, para aperfeiçoar, é crucial treinar, treinar, treinar.
Treinos, sim, mas quando? A coincidência contextual dos vários projetos da mesma escola conduz, inevitavelmente, a tempos coincidentes. Tudo depende da força da palavra e da capacidade argumentativa dos coordenadores e da motivação dos alunos, que preside à dança da rotatividade de treinos e atividades, no decurso do ano letivo. Não é imediato, cada minuto de treino é conquistado a pulso, com rentabilização de intervalos e momentos de aula, contornando obstáculos de testes e inúmeras atividades, que se sucedem a um ritmo imparável. Persistir em treinar é a chave para a qualidade em palco, persistir sempre, contornando as pedras pequenas e grandes no caminho. No mês de maio, dentro e fora da sala de aula, de manhã à tarde, foi preciso persistir, otimizando cada minuto, cada intervalo, cinco minutos são suficientes para ouvir, treinar, aperfeiçoar. Sem treinos, o horizonte do palco torna-se uma fatalidade, um desastre mais do que anunciado.
Como nota final, e retomando a voz e a visão de narradora, as (des)venturas da coordenadora são próprias da veleidade de quem se arrisca a dirigir atores, ainda para mais jovens e em registo cómico. A seu desfavor, direi que teve alguns enganos de monta, como o desaparecimento dos cravos vermelhos, laboriosamente construídos pela D.ª Alice, mal guardados e pouco acautelados pela coordenadora na Biblioteca, e essenciais à segunda parte de declamação de poesia, em comemoração do 25 de abril, a revolução dos cravos. Ou ainda a infelicidade de um ator, Paulo Futre, ingloriamente fechado do lado de fora do palco, pelo que não alcançou fazer a vénia conjunta, nem receber palmas do público, no que é a coroa de glória de um ator. A seu favor, a coordenadora teve o mérito de recuperação dos cravos, um pouco amassados, o que conta é a intenção, lá estiveram no palco. seguros com fita-cola, bem alto nas mãos dos atores e declamadores. E ainda a persistência otimista de todos os dias, em escrever, treinar, ultrapassar, resolver. Que sem esse ânimo é impossível navegar à vista em mar de sargaço, nem Fernando Pessoa o consegue ou vislumbra, quanto mais uma simples coordenadora de projeto.
Parabéns a toda a equipa de 2023-24, professores, monitores e atores.

Padrão da Légua, 2 de maio de 2024
A coordenadora, Maria de Nazaré Coimbra


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