
Diana e o Espírito da Floresta
O chão da floresta tremia com os passos de corrida de Diana. Ela avançava sem parar entre os ramos das árvores, a dizer baixinho:
– Não a vão cortar, não podem. Não vão cortar a minha árvore! Não vão cortar árvore nenhuma!
Soubera nesse dia que a floresta ia ser deitada abaixo. “Para construir casas para novas famílias.”, haviam-lhe dito os pais. Era mentira. Diana sabia que o objetivo era construir um parque de estacionamento, tinham-lho dito na vila. Não sabia quando aconteceria, mas não devia demorar muito. O pior de tudo é que o seu pai era um dos responsáveis pela construção do parque. “Como é que ele pode fazer tal coisa?”, pensava Diana. “Ele sabe o quão importante a floresta é para todos, ele não pode fazer isto, como é que é capaz de destruir tudo aquilo por causa de um parque de estacionamento?”
Um parque de estacionamento… Não haveria outro lugar no qual as pessoas poderiam estacionar os malditos carros? Porquê na sua floresta onde ela e tantas outras crianças cresceram, onde viviam tantos animais, onde o ar era puro e sem poluição.
Depois de muita corrida, alcançou a árvore. E que árvore bela. Era um carvalho, perfeito para trepar. De um ramo grosso pendia um pequeno baloiço que o seu pai arranjara. E lá em cima estava a sua casa na árvore. Era pequena e suja, mas era especial. Toda a floresta era especial.
O plano inicial da menina para a salvar era clássico: subir para a árvore e não arredar pé. Talvez não fosse a melhor abordagem, mas não havia outra opção, estava por sua conta.
Enquanto contemplava aquela preciosidade, Diana ouviu um barulho. Teriam chegado para a cortar, ou seria apenas um animal?
E então ela viu.
Era uma rapariga. Quando Diana conseguiu vê-la melhor por entre as árvores, ficou de queixo caído. Ela não era apenas linda, era… diferente. Os seus cabelos eram da cor do tronco de carvalho, ondulados como trepadeiras que desciam da raiz até ao fundo das costas. Os olhos de todos os tons de verde. A pele dela era levemente acastanhada e luminosa. As suas vestes eram simples e compostas por ramos, folhas e pedaços de tecido. Usava uma tiara de testa, feita de folhas de ouro, com uma pequena árvore dourada ao meio, da qual pendiam finas correntes. Parecia uma princesa que se havia perdido na floresta há muito tempo. De tanto que o olhar de Diana se focava nela, ela nem se apercebeu de que a misteriosa rapariga se aproximava, só acordando quando ela falou numa voz suave, mas forte:
– Olá, Diana. Que bom ver-te.
– Olá…? Quem… Quem és tu? E como sabes o meu nome? Nunca te tinha visto.
A rapariga esboçou um leve sorriso.
– Tu nunca me viste, claro. Mas eu vi-te crescer, Diana. A brincar nesta floresta. Eu sou o Espírito da Floresta.
“O quê?” pensou Diana, “Isto é alguma partida?”. Mas a menina não duvidou por muito tempo. A aparência da misteriosa rapariga não deixava dúvidas. Ela não era alguém ou algo comum. Parecia saída de um conto de fadas. Diana acreditava em contos de fadas.
– O Espírito da Floresta? – disse – Então…, sempre estiveste aqui?
– Sim, sempre. E por isso sei o teu nome. E sei que posso contar contigo.
Diana não disse nada, e o Espírito prosseguiu.
– Não precisas de ter medo. Eu mostrei-me a ti pois preciso da tua ajuda. Será que sabes para quê?
A menina ainda estava levemente desorientada, mas ela sabia a que o Espírito se referia.
– Ah… A floresta, o meu pai quer deitá-la abaixo… Já sabes disso? E queres a minha ajuda para o impedir?
O Espírito acenou afirmativamente, e disse:
– Eu sei que vieste cá para o fazer. Mas tu própria sabes que por muito determinada que estejas, não consegues proteger toda esta área. Eu própria não o consigo fazer. Sou um Espírito. Preciso de ti e de muitas mais pessoas para a salvar.
– Eu ajudo-te! Eu já falei com o meu pai, mas ele não ouve! Parece que se esqueceu de todos os bons momentos que cá passámos. Foi ele que me arranjou o baloiço, que construiu comigo a casa na árvore… Não sei o que o levou a tomar esta decisão.
– Lamento muito por isso, querida. Infelizmente, não sei como te consolar. Ou sequer dizer o porquê de ele ter tomado esta decisão. Por vezes, a mente das pessoas esquece-se do que realmente importa. Construir um parque de estacionamento e destruir tudo isto é um enorme desperdício. As árvores purificam o ar e abrigam animais, mas parece que há quem prefira contaminar o ar e abrigar automóveis.
Diana ficou em silêncio.
– Confia em mim. O teu pai não é o primeiro nem será o último a decidir algo semelhante. Pensa nas grandes fábricas, por exemplo, que preferem deitar os resíduos poluentes para o mar, prejudicando os animais e o habitat em vez de realizar o tratamento das águas, apenas porque não querem ter esse trabalho, embora estejam fartos de saber que tal ato tem efeitos catastróficos. Às vezes, a ganância e a ignorância são mais fortes que a bondade.
– Mesmo assim, porquê? – retorquiu Diana. – Se sabem que o que fazem é errado, porque é que continuam como se não vissem o que estão a destruir?
– Até há alguns anos, não parecia tão mau. Atirar lixo para o chão uma vez não trazia grandes consequências. Mas depois deixou de ser apenas uma vez. Mais gente começou a pensar da mesma forma, o que levou ao desastre. Já pensaste o que aconteceria se todas as pessoas do mundo se juntassem e decidissem atirar, cada uma, um saco de lixo para um rio?
– O rio ficaria atolado de lixo. É como acontece nos mares. Os animais morrem asfixiados de tanto plástico – respondeu a menina.
– Exato – concordou o Espírito da Floresta. – Não podemos deixar que os animais desta floresta tenham um destino semelhante. Temos de arquitetar um plano. Anda, vamos dar uma volta enquanto discutimos isso.
Diana seguiu-a, não sem antes olhar para a sua querida árvore e prometer a si própria que ela ainda estaria naquela floresta dali a muitos anos, intocada, assim como todas as árvores ao seu redor.
– Então, tens alguma ideia? – perguntou o Espírito.
– Nenhuma. – respondeu Diana. – Posso falar de novo com o meu pai, mas ele já decidiu.
– Se não o podemos fazer mudar de ideias, temos de o impedir.
– Para ser sincera, sinto-me um pouco mal em ir contra o meu pai. O que ele faz é errado, mas receio que ele fique zangado – disse a pequena, tristemente.
– De certeza que ele compreenderá. Quem sabe, ele pode estar apenas a seguir ordens, e ter-te dito que foi opção dele só para não ficares a pensar que ele poderia ceder a algo que te fosse magoar. – Sugeriu, sabiamente, o Espírito.
– Espero que tenhas razão…
O Espírito da Floresta sorriu, dando a Diana o resto da confiança de que precisava para prosseguir.
– Acho que tenho uma ideia – disse ela. – Mas vamos precisar de ajuda, muita ajuda.
– Não esperava o contrário. Conta-me o que tens em mente – respondeu o Espírito.
Muito tempo ficaram a arquitetar o plano. Quando este ficou pronto, Diana sugeriu que dessem a volta, pois estava na hora de ela regressar a casa. Caminharam as duas de regresso ao majestoso carvalho, sempre a relembrar o plano.
– Bem, chegámos. – disse a misteriosa rapariga, ao avistarem o carvalho. – Boa sorte, amanhã. Eu cumprirei a minha parte do plano, mas depois o resto depende de ti, estás preparada?
– Estou, não deixarei que deitem abaixo a floresta, prometo – respondeu Diana.
– Muito bem. Assim sendo, aqui te deixo.
– Voltarei a ver-te? – questionou Diana.
– Se tudo correr bem, não. Acredito que conseguirás cumprir o plano. Quando tudo estiver bem, não precisarás mais de mim.
Diana sentiu-se um pouco desapontada por não voltar a falar com o Espírito, e isso foi visível.
– Não te preocupes. Vou estar sempre aqui, como sempre estive. – Pegou na mão de Diana por um momento, transmitindo-lhe coragem, e largando-a pouco depois. Começou a recuar devagar. – Adeus, Diana. E lembra-te, sê corajosa e luta sempre por aquilo que é certo.
– Adeus, Espírito da Floresta – respondeu ela, contemplando pela última vez aqueles misteriosos olhos de todos os tons de verde. O Espírito da Floresta virou-se e avançou em direção a uma parte mais densa da floresta, e os seus cabelos da cor do tronco de carvalho e ondulados como trepadeiras desapareceram por fim entre a folhagem.
Diana regressou a casa quando o sol se pôs. Os pais perguntaram onde ela estivera, preocupados, mas ela disse-lhes que tinha estado na casa de uma amiga. “Mentir uma vez não faz mal, certo?”, pensou ela.
Nessa noite, ela foi dormir cedo para se preparar para o dia seguinte. Não teve nenhum sonho, mas o mesmo não pode ser dito em relação ao pai e a toda vila. Era parte do plano.
O Espírito da Floresta tinha lançado um encantamento para que todos na vila sonhassem com o que aconteceria se a floresta fosse destruída. Todos tiveram um sonho diferente, mas o do pai de Diana foi o mais marcante: no lugar da floresta viu um parque de estacionamento, cinzento e sem vida, com os troncos das árvores empilhados para serem levados de lá. Os animais a passar por lá a correr, desesperados por encontrar outro local para ficar. E depois, avistou o pequeno baloiço que arranjara para a sua filha caído no chão, juntamente com partes da casa na árvore. Ainda sentia um aperto na garganta quando acordou.
Nos dias que se seguiram, Diana pendurou cartazes que havia feito juntamente com colegas para exigir o cancelamento do projeto. Colocou no jornal uma notícia a marcar uma pequena manifestação para o fim da desflorestação, mas a revolta não adiantou. Ela não desistiu. Falou com a população da vila que, motivados pelo sonho que haviam tido, se juntaram à causa. No dia marcado para o começo do projeto, a vila marchou até à floresta, para a proteger. O seu pai ficou bastante admirado ao ver a filha liderar a manifestação, quando lá chegou para executar o combinado.
– As árvores ninguém corta! A Natureza importa! As árvores ninguém corta! A Natureza importa! – entoavam todos.
Depois, Diana foi para a frente do seu carvalho e fez um pequeno discurso sobre todos os momentos que havia passado naquela floresta, e do desperdício que seria deitá-la abaixo.
– Vamos perder a maior beleza desta vila! Não há lugar melhor para passar tempo com a família do que esta floresta. Não há lugar mais belo e puro. Esta é também a casa de muitos animais! As árvores ninguém corta! A Natureza importa!
Foi seguida por mais pessoas que também contavam as suas experiências e reforçavam as suas ideias.
A seguir, encorajados por Diana, muitas crianças e adolescentes começaram a subir para as árvores. A menina subiu para a sua casa na árvore e, juntamente com todos, entoou:
– As árvores ninguém corta! A Natureza importa!
Apesar de ter sido uma manifestação calma e sem qualquer violência, os responsáveis pela construção do parque não tiveram outra opção senão retirar-se. Não havia dúvidas de que os manifestantes não iam desistir.
Antes de ir embora, o pai de Diana olhou para ela, e a menina pôde ver no seu olhar que ele não estava zangado. Até parecia orgulhoso. “Talvez o Espírito da Floresta esteja certo” – pensou – “Ele não o queria fazer, eram ordens, de certeza.”
Por falar no Espírito da Floresta, Diana podia jurar que, no fim do dia quando se estavam a ir embora, ela ouviu uma voz suave, mas forte, a sussurrar:
– Muito bem, Diana. Estou orgulhosa.
Diana não parou por aí. Juntamente com a vila, começaram a fazer recolha de lixo de rios e lagos da povoação. Plantavam árvores e evitavam qualquer desflorestação. Começaram todos a utilizar mais transportes públicos, logo a construção de um parque para os automóveis deixou de ser necessária. Acolhiam animais abandonados e tratavam deles.
E, muitos anos depois, quando Diana já era muito velhinha e levou os seus netos a essa vila para brincar na floresta, o seu majestoso carvalho, perfeito para trepar, ainda se erguia, intocado, assim como todas as outras árvores ao seu redor. Tal como ela prometera.
Filipa Delgado, 9.º D (EBSPL)
Uma conexão verde
O inverno aproximava-se na aldeia da Laura, os dias começavam a ficar mais escuros e as nuvens mais tristes. Eram dias cinzentos e nublados onde as lágrimas dos Deuses abençoavam os campos e batizavam os rostos das pessoas perdidas na rua.
A Laura acordava cedo. Todos os dias no erguer da manhã, acordava com o cantar remoído do galo e a escassa luz do céu preenchia os olhos daqueles que a procuravam. O inverno não era nada a sua estação favorita!
Ao abrir a porta do seu quarto, Laura deparou-se com a mãe que se sentara na ponta da sua pequena cama, coisa que fazia quando queria ter uma conversa séria.
– Laura, senta-te aqui, por favor. – disse a mãe enquanto batia levemente com a mão na beira da pequena cama, ao seu lado.
– Eu e o teu pai estivemos a conversar e achámos que seria melhor mudarmo-nos para a cidade. – Continuou, enquanto a Laura ainda se sentava na cama.
– Porquê? E o que vai acontecer com a nossa casa? E o nosso jardim? Como podes sugerir uma coisa como essa, quando moramos aqui há tanto tempo?! – Exclamou Laura, enfurecida com a decisão dos pais. Certa de que não se poderia abandonar algo tão facilmente, especialmente quando era o lugar onde guardava as suas maiores e mais engraçadas memórias.
– Laura, entende que… – Começa a mãe, mas sendo logo interrompida pela filha.
– Não entendo nada! Não quero entender, este sempre foi o meu lar e a minha casa. Tu não consegues substituí-lo nem nunca conseguirás! – Diz a Laura que começa a correr, com lágrimas nos olhos, para o jardim.
Por um momento, conseguiu ver a expressão frustrada da mãe e com isso desata a chorar perto da grande laranjeira do seu jardim. Era uma laranjeira alta e bonita, com quem Laura compartilhava os seus segredos e falava sobre tudo e mais alguma coisa, quando chegava da escola. Talvez a Laura não entenda que as plantas são só plantas, não têm opinião, nem pensamentos, nem falas. Pelo menos, é o que as pessoas dizem…
– Ei, tu. Porque é que estás a chorar?
– Hã? Quem está aí? – A Laura olha em volta, mas a única coisa que vê são plantas e mais plantas.
– Sou eu, a Laranjeira. Porque é que estás a chorar? – repetiu a laranjeira.
– Ah, bem… Os meus pais querem ir morar para a cidade, e querem que eu vá com eles, mas eu não quero deixar esta casa. – Disse a Laura, ainda a soluçar.
– Sabes, é mesmo difícil não nos apegarmos às coisas ao nosso redor, mas ao menos podes explorar outros sítios e novos arredores, porque ao contrário de ti, eu sou muito pesada e tenho fortes raízes que me prendem ao chão. Sou mais velha do que podes imaginar, Laura. Apesar de gostar de te ouvir, acho que devias ir com eles e fazer novos amigos. Acredita em mim, não te vais arrepender. – Aconselhou a sábia árvore.
– Acho que tens razão – concordou a Laura, ainda hesitante.
E com isso, despediu-se da árvore e voltou para dentro de casa. Lá desculpou-se com a mãe e pôs-se a fazer a mala para o triste dia da viagem. A Laura não estava muito preocupada com despedidas, já que não tinha muitos amigos, mas o que lhe custou mais foi dizer «adeus» ao seu jardim encantado e ao cenário verde da aldeia.
Nos primeiros dias, Laura tentava adaptar-se às vastas regras da cidade, que pareciam não acabar. Era preciso ter tanto cuidado para não passar em becos desconhecidos ou esperar que os carros parassem para se atravessar e havia tantos deles que nem sequer paravam… Agora, a partir de uma certa hora não podia fazer muito barulho em casa por causa dos vizinhos. E quem diria que fosse tão difícil dormir numa cidade, por causa do barulho de carros a buzinar ou apenas a travar!
Foram dias de adaptação terríveis, de acordo com a Laura. O verde do seu jardim e a laranjeira foram substituídos pelos altos prédios monótonos e chatos. As caminhadas foram substituídas por correrias para não levar encontrões dos outros. Na cidade, toda a gente andava com aparelhos brilhantes nas mãos que não metiam muita graça à Laura, preferia mil vezes correr por um prado florido num caminho sem fim e conviver com as plantas e os animais à sua volta, porque nesta realidade os animais sabem viver melhor a terra do que nós.
O tempo foi passando e o mundo continua em constante mudança enquanto tenta manter o equilíbrio nele próprio. Assim, como não pode ser só rosas a abrir, este também tem a sua época nua, como um pêndulo a balançar eternamente entre a luz e as sombras. E, da mesma maneira que a Terra se tenta proteger dos raios ultravioletas, nós destruímos as suas proteções. E o tempo passa, mas nada se pode resolver só com palavras, pois quanto mais intenso brilha o Sol, mais intensas são as sombras que o mesmo cria.
Ainda com a inocência de criança, não entendia o porquê de as pessoas serem tão alienadas a ponto de ignorarem a natureza. Era tão bom viver rodeada desses pequenos seres, que lá viviam, a sussurrar-lhe o silêncio natural aos ouvidos, as paisagens lindas que constituía, o cheiro forte das vaidosas flores que dançavam com o vento, a sensação da casca rugosa da laranjeira que passava por entre os dedos e o intenso sabor dos frutos que esta dava…
Agora, com um aperto no peito, estava num sítio desconhecido onde o silêncio cantava alto, a sua visão estava turva, as suas mãos estavam vazias, o sabor que restava na sua boca era insonso e amargo e o único cheiro que sentia era o vazio indolor. A Laura estava confusa e as suas emoções lutavam por dentro e discutiam para saber qual delas irias ser aceite por ela. Apesar de toda essa mágoa, havia algo neste lugar que fazia com que Laura se sentisse segura e confortada, como se ela finalmente tivesse um lugar para chorar e se preocupar apenas consigo mesma. E assim, avista uma luz no meio de toda a escuridão que a cercava. Aproximou-se e finalmente, viu algo que lhe era familiar…algo que cresceu durante anos consigo, física e psicologicamente: a laranjeira.
– Não…Não pode ser…- disse a Laura, incrédula.
– Olá, de novo pequena sonhadora. – disse a laranjeira, que estaria a sorrir se tivesse uma boca.
A Laura emociona-se com este bonito reencontro e corre para os braços… digo, ramos da laranjeira e, da mesma maneira que fez no jardim, desatou a chorar. Estava cheia de perguntas a vaguear na sua cabeça, mas decidiu deixá-las para depois, porque tudo o que importava agora era ela e a sua laranjeira.
Desde então, a Laura e a laranjeira estão nas nuvens do dia, que umas vezes choram e outras estão apenas de passagem a observar as maravilhosas imagens verdes do mundo.
Leonor Ribeiro, 9.º F (EBSPL)
A profecia da Senhora Cisne
Era uma vez uma pequena aldeia simples e antiga. Ela era mágica: os animais falavam, pássaros acordavam os aldeões de manhã com o seu canto suave, as árvores eram enormes e saudáveis e todos eram felizes. Nada era artificial, era tudo real, um paraíso, ou até mesmo a Terra idealizada. E, nesta mesma aldeia, vivia um jovem muito alegre. Ele ajudava todos, cuidava dos animais, sempre com um sorriso de oiro. O seu nome era Alfred, e ele era a alma do local.
Um dia, Alfred andava pela floresta ao lado da aldeia, até que ouviu um ruído a vir do lago. Confuso, ele logo correu naquela direção, mas, ao chegar lá, apercebeu-se de que se enganara, pois não se tratava um ruído e, sim, de um grito, que estava a vir das relvas altas que cresciam ao lado do lago. Ao aproximar-se do local, viu que era um cisne, com uma pata magoada. Alfred imediatamente perguntou:
– O senhor cisne está bem?
– Sim, estou. E, já agora, é senhora e não senhor! – a Senhora Cisne respondeu, ligeiramente zangada.
– Peço desculpas! Mas como isso aconteceu? – perguntou Alfred.
– Uns meninos espetaram-me a pata com uma faca! – respondeu a Senhora Cisne, em dor.
– O quê!? Mas quem e porquê? – Alfred perguntou, preocupadíssimo.
– Adorava contar a história toda, mas eu estou mesmo em dor, o menino poderia ajudar-me, por gentileza? – a Senhora Cisne falou, com a voz aflita por causa da dor.
– Claro, claro! – Alfred disse enquanto pegava a Senhora Cisne ao colo.
Alfred levou o pássaro magoado para um banco e limpou-lhe o ferimento com a água que levava numa garrafa, cobrindo-o com uma faixa de tecido que carregava consigo.
– Pronto, isso deve resultar, sente ainda alguma dor? – perguntou o rapaz.
– Não muito, obrigada! – a Senhora Cisne respondeu, calmamente.
– Ainda bem! – respondeu o rapaz, aliviado.
– Bom, o que aconteceu foi que eu estava a falar com os meninos, pareciam ter mais ou menos a tua idade. Contei-lhes que era capaz de prever o futuro, eles perguntaram como seria, eu disse-lhes e… – ela parou, deu um suspiro e continuou a sua história. – Eles não gostaram nada do que eu disse, então gritaram comigo e um deles espetou-me uma faca na pata. Eles deixaram-me lá, sozinha. O resto já sabes – a senhora cisne terminou a história com um tom triste e desanimado.
– Sinto muito pelo que aconteceu. Se não fosse um tópico sensível para si, poderia contar-me o futuro que os deixou tão infeliz consigo? – o rapaz perguntou. Mesmo sendo uma pergunta difícil para a Senhora Cisne, o tom que ele utilizou fez com que ela contasse sem hesitar:
– A natureza e a beleza da nossa aldeia não irão durar muito tempo. Por conta de uma invasão que o nosso exército irá fazer a uma aldeia inimiga – ela parou ao ver a expressão de choque do rapaz.
-C-c-continue…- Alfred pediu a gaguejar nas palavras, assustado com a previsão da Senhora Cisne.
– A única maneira de alterar o futuro é não te juntares ao exército amanhã e convenceres os restantes a cancelar essa invasão cruel e desnecessária – a Senhora Cisne explicou-lhe.
– Mas que mentira! A senhora está a inventar tudo! – o rapaz exclamou com raiva. – Eu vou-me embora, que fique a falar sozinha!
No caminho, o rapaz duvidou se era realmente verdade, mas acabou por se convencer de que era mentira, que a Senhora Cisne só o queira enganar.
O dia seguinte era o aniversário de 18 anos do Alfred, o que significava que ele poderia escolher ir trabalhar para o campo ou juntar-se à tropa. Alfred acordou animado, mas, como a sua família ainda estava a dormir, foi dar uma volta pela aldeia até que ouviu uma menina o chamar.
– Alfred! Alfred! – a menina gritava animada.
O rapaz seguiu a voz até que se deparou com Vanessa, o seu interesse amoroso.
– Olá, Vanessa! – Alfred cumprimentou-a.
– Olá, Alfred, parabéns! – ela respondeu ao dar-lhe um abraço rápido. – Queria entregar-te algo, não sei o que é, mas sei que é para ti. Diverte-te nos teus anos, até logo!
– Obrigada, até logo, Vanessa – Alfred despediu-se e seguiu rumo a casa.
Quando chegou, a família já estava acordada à sua espera. Eles começaram a oferecer-lhe as prendas, Alfred agradeceu e já estava para sair novamente, pois preferia passar esse dia especial com o povo da cidade, quando o pai lhe puxou pelo braço.
– Recebeste a carta do exército? – perguntou o pai com uma expressão séria.
-Sim – respondeu Alfred.
– Então vais, certo?- o pai perguntou-lhe, a família inteira já olhava para os dois.
Alfred parou por um segundo e pensou no que a Senhora Cisne dissera – será que ela estava certa? Alfred respondeu ao pai com a sua decisão já tomada:
– Sim, claro que eu vou! – o rapaz respondeu determinado.
– És o meu orgulho, filho! – o pai abraçou-o juntamente com a família, todos a celebrar a decisão do filho.
O restante do dia foi a comemorar os anos do Alfred, pois no seguinte iniciava-se o treinamento. Passou-se um mês, e Alfred tornou-se um cavaleiro muito habilidoso e, juntamente com os seus companheiros, tinham grandes chances de conquistar as terras da aldeia inimiga. Logo, Alfred partiu para a batalha.
A invasão correu terrivelmente mal, o exército inimigo era muito mais forte, então foi uma guerra breve, pois os inimigos venceram. Metade da população da aldeia havia morrido, incluindo alguns familiares de Alfred e Vanessa. Alfred, em lágrimas, passeava pela última vez na sua aldeia natal até que encontrou a Senhora Cisne, moribunda.
– Peço desculpas à senhora! Deveria tê-la ouvido! Desculpe!- disse Alfred ao abraçar o cisne.
– Agora já não adianta, na próxima vez, confia nos mais sábios. Tinhas a oportunidade de viver a Terra, mas escolheste a violência – disse a Senhora Cisne, ao fechar os olhos antes de, finalmente, morrer.
Alfred chorou, oceanos saíam dos seus olhos, até ser levado como escravo para a aldeia inimiga, lidando com a consequência da sua ação.
Verena Bon, 7.º E (EBSPL)





