
A Sabedoria da Terra
Nos confins de uma terra onde o horizonte se dilui entre o verde das florestas e o azul profundo dos céus, repousava uma aldeia cujos habitantes se consideravam filhos não da sorte, mas da Terra. Ali, o homem não era senhor da natureza, mas sim seu discípulo fiel, consciente de que a harmonia entre o bucólico e o divino era o alicerce da existência. Os mais velhos da aldeia, mestres do saber ancestral, costumavam dizer que o homem verdadeiro é aquele que não se perde no desejo de dominar o mundo, e que se deixa envolver pela sabedoria do chão que pisa.
Entre os mais destemidos da aldeia, destacava-se um jovem chamado Eron. De alma profunda e serena, Eron nutria pela sua terra um amor que beirava o místico. Desde menino, ouvia os cantos dos ventos e os sussurros das árvores, e sentia a pulsação da terra como se ela fosse extensão do seu próprio corpo. A sua vida era tecida pelo ciclo das estações, e nada lhe era mais sagrado do que o compasso dos seus ritmos.
Certo outono, a aldeia, que vivia do que a terra produzia, enfrentou uma crise sem precedentes. A chuva, que outrora caía em abundância, parecia ter-se afastado, deixando o solo árido e as plantações a murchar. Os rios, antes caudalosos e generosos, viram as suas águas a esvair-se, como se a terra tivesse, de algum modo, esquecido a sua promessa de fertilidade eterna. A incerteza que aquela mudança repentina de rotinas criou espalhou-se entre todos os aldeões, cujos olhos, antes brilhantes, agora se viam obscurecidos pelo vislumbre de uma realidade citadina e tenebrosa.
Foi então que Eron, no seu íntimo, sentiu uma convocação. Ele soubera que a sabedoria não reside no poder humano, mas na capacidade de escutar as lições imemoriais que a terra, com a sua eternidade silenciosa, sussurrava. Decidiu, então, afastar-se de todos, para encontrar o ponto mais alto da montanha que circundava a aldeia. Subiu em silêncio, sem pressa, como quem respeita o caminhar de um velho ritual. O vento acariciava-lhe o rosto, e a vastidão do mundo parecia envolvê-lo numa contemplação que transcendia a simples perceção humana.
Quando atingiu o cume, Eron ajoelhou-se sobre o solo gélido e estendeu as suas mãos, tocando a Terra com reverência. Ali, num gesto que parecia mais uma oração do que uma simples ação, ele entregou-se ao silêncio absoluto. Era como se a própria natureza, na sua grandiosidade, desejasse falar-lhe. E o jovem, por fim, escutou.
Não se tratava de palavras ou de enigmas, mas de uma presença. A Terra, com os seus velhos mistérios, revelava-lhe o segredo da vida: que viver a terra não é apenas extrair dela os seus frutos, mas entender a sua essência, respeitar os seus ciclos e submeter-se à sua vontade, mesmo que esta, por vezes, pareça desafiar os desejos humanos. A natureza não se submete à pressa do homem, nem à sua vaidade. Ela age segundo a sua própria medida, que é mais longa, mais profunda, mais sábia.
Eron compreendeu que o sofrimento da Terra não era um castigo, mas um reflexo da indiferença humana para com os seus ritmos. A humanidade, perdida na sua ânsia por conquistas efémeras, havia-se esquecido da sagrada dança entre o homem e a natureza. O homem moderno, afastado da pureza das suas origens, tratava a terra como um objeto, não como um ser com vida própria, com vontades e limites. E a Terra, como um ser sensível, reagia à sua indiferença, à sua exploração desenfreada.
Com esse entendimento profundo, Eron retornou à aldeia. Não disse uma palavra sequer sobre o sucedido, mas as suas ações falaram por si mesmas. Começou a trabalhar a terra com mais calma, com mais respeito, respeitando os seus ciclos e as suas necessidades. Ele ensinou aos outros aldeões que a escassez não era a falta de dádivas, mas a consequência da desconexão. A partir de então, a Terra, generosa e sábia, respondeu. As chuvas começaram a cair com mais regularidade, e a vida renasceu nas colinas áridas.
A comunidade da aldeia compreendeu, então, que viver a Terra não é apenas uma questão de viver da terra, mas de ser um com ela, de compreender os seus sinais e as suas respostas. Viver a Terra é cultivar não apenas a colheita, mas a alma, nutrindo-se não apenas de alimentos, mas de sabedoria ancestral. O jovem, agora em paz, sabia que o seu destino estava irremediavelmente entrelaçado com aquele chão, e que, enquanto vivesse, ele também viveria a Terra – com ela, e para ela.
Desse modo, a grande verdade que se revelou a cada dia, aos poucos, aos olhos daqueles que, como Eron, eram capazes de ver além da superfície foi: que a Terra não é apenas um lugar em que se habita, mas uma forma de viver que se compartilha, com respeito, com reverência, com amor.
Rodrigo Sousa, 12.º E (EBSPL)
No coração das chamas
O calor do verão na Califórnia era quase insuportável. O chão, rachado e seco, estalava sob os pés, enquanto o vento quente trazia consigo o cheiro a poeira e a folhas mortas. O céu, que em dias normais era de um azul límpido, apresentava agora uma estranha tonalidade esbranquiçada, uma sombra que parecia anunciar algo.
Miguel estava de folga naquele dia, algo raro para quem vestia a farda de bombeiro. Aproveitara a manhã para caminhar pelas colinas, longe do barulho da cidade, mas o ambiente não lhe dava descanso. O calor parecia ter vida própria, como se tudo ao seu redor estivesse prestes a ceder.
Num pequeno descampado, viu uma criança sozinha, agachada junto a um tronco caído. Os cabelos castanhos despenteados cobriam-lhe parte do rosto, enquanto, com um pau, desenhava no chão poeirento. Miguel aproximou-se devagar, limpando o suor da testa. Apesar de a farda estar longe, os seus instintos estavam sempre presentes.
– Olá! O que fazes aqui sozinha? – perguntou, num tom tranquilo.
A criança levantou o olhar, surpreendida, mas logo abriu um sorriso tímido.
– Estou só a brincar. Os meus pais estão ali – respondeu, apontando com o pau para uma clareira mais à frente, onde se viam alguns carros e tendas.
Miguel seguiu o olhar da criança. Era um grupo de campistas, provavelmente famílias a tentar escapar da rotina de trabalho. Viu pessoas sentadas em cadeiras e, no centro, uma pequena fogueira improvisada. O coração apertou-lhe no peito.
– Sabes que nesta altura do ano não é seguro fazer fogueiras, certo? – disse Miguel, tentando não soar demasiado sério.
A criança encolheu os ombros.
– O meu pai disse que não faz mal. É só para aquecer a comida.
Miguel respirou fundo. Olhou de novo para o grupo e, embora a distância fosse curta, o cheiro a fumo já chegava até ali.
– Fazes-me um favor? Vais lá dizer ao teu pai que um bombeiro quer falar com ele?
A criança hesitou por um momento, mas depois assentiu com a cabeça e começou a correr em direção à clareira. Miguel ficou ali, por instantes, a observar. O ar parecia mais pesado, quase vibrante. Sabia, no fundo, que aquele calor não trazia nada de bom.
Miguel aproximou-se da clareira, os passos firmes sobre o chão seco. O grupo de campistas estava distraído a conversar. A fogueira improvisada ardia preguiçosamente, mas Miguel sabia que bastava uma faísca para transformar aquilo num pesadelo.
– Boa tarde! – disse ele, mantendo a voz amigável, mas suficientemente séria para chamar a atenção.
Um homem alto, com barba e uma camisola manchada de suor, levantou-se. Tinha a expressão cansada de quem provavelmente passara a noite a acampar.
– Boa tarde. Precisa de alguma coisa?
Miguel cruzou os braços, apontando com o olhar para a fogueira.
– Sou bombeiro e precisava de falar convosco sobre isto. Não sei se sabem, mas o risco de incêndio nesta área é extremamente elevado. Não devia haver fogueiras.
O homem franziu o sobrolho, como se o comentário fosse um insulto.
– É só uma fogueirinha. Estamos a cozinhar. Não vai acontecer nada, estamos a ter cuidado.
Miguel inspirou fundo. Sabia que estas conversas raramente terminavam bem.
– Não se trata de cuidado – disse, mantendo a calma. – O vento pode mudar de repente e, com o terreno tão seco, basta uma faísca para as chamas se espalharem. Já vi tragédias começarem assim. Não vale o risco.
Enquanto falava, reparou numa mulher mais velha que se aproximava, preocupada.
– Está a dizer que temos de apagar a fogueira? – perguntou ela.
– Exatamente. E, já agora, aconselho-vos a desmontar o acampamento e seguir para uma zona mais segura. Este calor não é normal, e as condições estão mesmo perigosas.
Algumas pessoas do grupo começaram a cochichar, mas Miguel sabia que nem todos iam levar as suas palavras a sério. De repente, sentiu uma mudança no ar. O vento, que antes soprava fraco, ficou mais forte, levantando poeira e fazendo as folhas secas rodopiarem no chão.
E então sentiu. Não era apenas o cheiro da fogueira. Era outro tipo de fumo, mais denso, que vinha de longe. Miguel virou-se instintivamente para as colinas. Ao longe, uma nuvem cinzenta erguia-se lentamente, como um aviso silencioso.
O coração apertou-se-lhe no peito. Pegou imediatamente no telemóvel e ligou para a central.
– Aqui é Miguel. Estou na zona de Bear Ridge. Há sinais de fumo a nordeste. Confirmem se já receberam algum alerta.
A resposta foi rápida.
– Confirmamos vários relatos de um incêndio em expansão. O vento está a empurrar as chamas na direção sul. Precisas de evacuar a área imediatamente.
Miguel desligou e voltou-se para o grupo, que agora olhava para ele com um misto de curiosidade e preocupação.
– Não há tempo para discutir. Apaguem essa fogueira e saiam daqui já. O fogo está a caminho.
Enquanto todos começavam a arrumar apressadamente as suas coisas, Miguel olhou de novo para o horizonte. As cinzas no ar já começavam a cair, como pequenos flocos negros. Sabia que o pior estava por vir.
Miguel ajudou o grupo a apagar a fogueira, mas os seus pensamentos estavam já no fogo que consumia a floresta ao longe. Assim que viu o último carro dos campistas desaparecer no horizonte, recebeu um alerta no rádio:
– Miguel, o fogo está a avançar para sul. Precisamos de ti aqui. Não temos homens suficientes.
Ele não hesitou. Voltou à sua carrinha, onde guardava o equipamento de emergência, e dirigiu-se para o local indicado. Quando chegou, a visão era assustadora. O incêndio tinha-se espalhado a uma velocidade impressionante, como se as chamas estivessem a ser alimentadas pelo vento. Árvores inteiras eram devoradas em segundos, enquanto o céu escurecia com a densidade do fumo.
Miguel colocou o capacete e a máscara, apanhou a mangueira de um dos camiões que já estavam no terreno. Juntou-se aos colegas, que combatiam desesperadamente o avanço do fogo, tentando proteger as aldeias mais próximas.
– Miguel, precisamos de criar um corte de segurança ali! – gritou um dos colegas, apontando para uma zona onde as chamas ameaçavam saltar para um vale repleto de casas.
Miguel correu para o local indicado. Pegou numa motosserra e, juntamente com outros bombeiros, começou a derrubar árvores na tentativa de criar uma barreira. A cada golpe, o calor tornava-se mais intenso. O ar estava tão pesado que respirar parecia impossível, mesmo com o equipamento.
De repente, o vento mudou de direção. O fogo ergueu-se, aproximando-se rapidamente da equipa.
– Recuem! Recuem! – gritou Miguel, puxando um dos colegas que hesitava.
Correu para trás, até encontrar uma zona mais segura. Mas mesmo ali, as faúlhas dançavam pelo ar, ameaçando incendiar tudo ao seu redor. Foi então que, no meio da confusão, ouviu um grito.
– Socorro!
Miguel olhou na direção do som e viu a criança que encontrara antes, junto a uma árvore parcialmente caída, com o rosto coberto de lágrimas e mãos estendidas. O coração dele disparou.
– Não pode ser… – murmurou, enquanto largava a mangueira e corria em direção à criança.
– Miguel, onde vais? – gritou um dos colegas.
– Há uma criança! Vou buscá-la!
A distância parecia interminável. As chamas avançavam depressa, o calor era quase insuportável, e as cinzas caíam como neve negra. Quando chegou à criança, ela tremia, agarrada ao tronco como se fosse a última coisa segura no mundo.
– Vem comigo! – disse Miguel, tentando manter a voz firme.
– Tenho medo! – choramingou a criança, recusando-se a largar a árvore.
Miguel ajoelhou-se, ignorando o calor que começava a queimar-lhe o uniforme.
– Olha para mim. Estás comigo, não vou deixar que nada te aconteça. Confias em mim?
Com esforço, a criança assentiu com a cabeça e estendeu-lhe os braços. Miguel pegou nela ao colo e começou a correr na direção oposta ao fogo. As labaredas dançavam atrás deles, cada vez mais próximas, mas ele não parou.
Quando finalmente chegaram a uma zona segura, Miguel entregou a criança a um dos voluntários que coordenava a evacuação.
– Cuidem dela. Os pais devem estar à procura – disse, a respiração pesada e a voz rouca.
A criança, ainda a soluçar, olhou para ele com olhos agradecidos.
– Obrigado…
Miguel tocou-lhe na cabeça suavemente, sem dizer nada. Não havia tempo para isso. Ele voltou para o incêndio, pronto para continuar a luta.
Depois de mais de três dias de combate intenso, o incêndio foi finalmente controlado. Mais de três mil bombeiros, 150 helicópteros e inúmeros voluntários juntaram-se no combate, mas as chamas consumiram cerca de 10 mil hectares. Miguel, exausto e coberto de cinzas, mal conseguia acreditar na devastação à sua frente.
Ao caminhar pelos restos da floresta, viu algo que lhe trouxe um misto de alívio e dor: uma pequena planta verde a despontar entre as cinzas. O fogo podia destruir tudo, mas a terra sempre se regenerava. Era um lembrete de que a luta pela preservação da natureza nunca terminava.
No final, contaram-se vinte vidas perdidas. Mas para Miguel, a memória daquela criança que conseguira salvar, agarrada ao seu braço no meio das chamas, era a sua maior vitória.
Enquanto olhava para o horizonte, Miguel respirou fundo. Sabia que, mesmo diante de tragédias como esta, a natureza tinha uma força maior do que ele imaginava. Enquanto houvesse vida, haveria esperança.
Benedita Marques, 11.º C (EBSPL)
A Chave da Vida
Era uma vez, numa pequena cidade junto à floresta amazónica, um jovem chamado Léo, apaixonado pela natureza. Léo cresceu a ouvir as histórias do avô, um indígena da tribo Yara, sobre os segredos da floresta. Uma lenda em particular sempre lhe chamou a atenção: a lenda da ‘Chave da Vida’, um artefacto ancestral capaz de equilibrar a harmonia entre a humanidade e a natureza. Segundo o avô de Leo, a chave estava escondida nas profundezas da floresta, protegida por enigmas e guardiões naturais. Durante anos, Leo considerou esta história apenas um conto infantil, até que um dia tudo mudou.
Após uma noite de tempestade, Leo encontrou uma carta misteriosa entre os pertences do avô. A carta continha um mapa com símbolos estranhos e uma mensagem enigmática: ‘Quando a Terra chorar, os escolhidos devem ouvir o seu chamamento’. Convencido de que aquilo estava relacionado com a lenda, Léo decidiu procurar respostas. Chamou a sua melhor amiga, Clara, uma investigadora e ambientalista dedicada, para o ajudar na missão.
“Se isto for real, pode ser a nossa oportunidade de fazer algo grande pela Terra”, disse Clara, olhando para o mapa com fascínio. Com mochilas cheias de provisões e coragem no coração, os dois partiram em direção à floresta, prontos para enfrentar o desconhecido.
O primeiro dia de caminhada foi tranquilo, mas repleto de sinais de degradação ambiental. Áreas devastadas pela desflorestação e rios poluídos mostravam a urgência da sua missão. Durante a noite, enquanto montavam o acampamento, ouviram sons estranhos vindos da floresta. Um homem idoso, de aspeto misterioso, apareceu de repente.
“Vocês não deviam estar aqui”, disse com uma voz grave. “A floresta é viva e protege os seus segredos. Se não forem dignos, ela própria os expulsará.”
Leo explicou o motivo de estarem ali, e o homem sorriu enigmaticamente. Apresentou-se como Kauê, um guardião da floresta, e ofereceu uma pista: ‘Sigam o rio até ao ponto onde parece desaparecer. Aí, encontrarão o primeiro desafio.’
Na manhã seguinte, Leo e Clara seguiram a orientação. O rio levou-os a uma gruta escondida por raízes gigantescas. No seu interior, encontraram desenhos rupestres que contavam histórias de equilíbrio e destruição. Ao centro, uma inscrição: ‘Para seguir em frente, provem que compreendem o ciclo da vida.’
A Clara analisou as imagens e percebeu que deveria organizar pedras representativas dos elementos: água, fogo, terra e ar. Depois de algumas tentativas, acertaram na combinação, e uma passagem secreta abriu-se.
Do outro lado, encontraram uma ponte suspensa sobre um abismo. Leo hesitou, mas Clara encorajou-o. Ao atravessarem, ouviram um rugido assustador. Um jaguar apareceu, bloqueando o caminho. Em vez de o enfrentar, Clara lembrou-se das palavras de Kauê: ‘Respeitem a floresta.’ Baixaram as cabeças em sinal de reverência, e o jaguar afastou-se, deixando-os passar.
Cada passo parecia levá-los mais profundamente para o coração da floresta. A ligação entre eles e a natureza tornava-se mais evidente. Enquanto caminhavam, Clara encontrou uma planta rara que, segundo ela, poderia curar doenças. ‘A Terra já nos oferece tudo o que precisamos, só precisamos de aprender a usá-la sem a destruir’, disse ela.
Após dias de desafios, chegaram finalmente a um vale coberto de nevoeiro. No centro, uma árvore gigantesca, mais alta do que qualquer outra, parecia tocar o céu. Os seus ramos brilhavam com uma luz dourada. Na base da árvore, existia uma fenda onde estava guardada a ‘Chave da Vida’. Contudo, um grupo de desmatadores também estava lá, tentando derrubar a árvore.
Leo e Clara agiram rapidamente. Utilizando o mapa e os ensinamentos que aprenderam, ativaram um mecanismo que fez emergir raízes gigantes do solo, espantando os invasores. A floresta parecia estar viva, protegendo-se.
Ao aproximarem-se da chave, Leo e Clara sentiram uma energia poderosa. Pegando na chave, ouviram uma voz ancestral: ‘Cuidar da Terra é uma responsabilidade de todos. Levem esta lição ao mundo.’
Quando saíram do vale, perceberam que a chave não era apenas um artefacto, mas um símbolo. Ela inspirou-os a iniciar um movimento global de consciencialização ambiental. Usaram as redes sociais, palestras e pesquisas para mobilizar pessoas em todo o mundo. O conhecimento que adquiriram na floresta tornou-se um guia para as suas ações.
Os desmatadores foram denunciados, e o governo local começou a tomar medidas mais rigorosas contra a exploração ilegal. Léo e Clara sabiam que o combate estava apenas a começar, mas estavam determinados a continuar.
Compreenderam que ‘Viver a Terra’ significava mais do que apenas sobreviver. Tratou-se de coexistir em harmonia com o planeta, respeitando a sua sabedoria e protegendo os seus recursos para as gerações futuras.
Anos mais tarde, Léo e Clara regressaram ao vale. A árvore gigante continuava lá, mais vibrante do que nunca. Sentiram-se gratos por terem ouvido o apelo da Terra e por terem feito a sua parte.
O legado da ‘Chave da Vida’ continuava vivo, não como um objeto mágico, mas como uma ideia poderosa que inspirava pessoas de todo o mundo. Sabiam que, enquanto existissem pessoas dispostas a lutar pelo planeta, a Terra teria sempre uma hipótese.
E assim, a história de Leo e Clara não foi apenas sobre salvar a floresta, mas sobre salvar a humanidade de si mesma. Afinal, viver a Terra era compreender que fazemos parte dela e que, sem ela, não somos nada.
Gonçalo França, 11.º C (EBSPL)
A Voz da Terra
Nas profundezas da Floresta de Gallen, onde as árvores se erguiam como gigantes adormecidos e os rios entoavam melodias ancestrais, existia uma aldeia esquecida por quase todos, exceto pelos que ali nasceram. O povo de Kaldor vivia de forma diferente de qualquer outro ser humano. Não usavam ferro, vidro ou qualquer outra invenção dos homens. Eles viviam a terra — não como proprietários, mas como parte dela.
Os Kaldórios eram conhecidos por uma habilidade rara: podiam ouvir e sentir a terra de uma maneira que parecia magia. Ao caminhar, os seus pés tocavam o solo com tamanha precisão que as raízes se moviam suavemente, permitindo-lhes escutar os sussurros da floresta. Quando plantavam, as sementes não caíam ao acaso; alinhavam-se com linhas invisíveis que apenas eles conseguiam perceber.
A líder da aldeia, Lyra, era uma jovem mulher de cabelos negros como a noite e olhos que refletiam as cores da floresta. Desde criança, demonstrava o dom de se comunicar com a terra de forma profunda, quase espiritual. Os anciãos diziam que ela estava “ligada ao coração do mundo”, uma conexão antiga e mística que remontava a tempos imemoriais. Contavam histórias de um pacto ancestral entre os primeiros habitantes de Kaldor e a terra, em que os homens juraram protegê-la em troca da sua sabedoria e sustento. Esse pacto, embora esquecido pelos outros povos, ainda vivia no sangue e nos costumes dos Kaldórios.
Lyra acreditava que o equilíbrio entre os Kaldórios e a terra de Gallen era eterno, como o pulsar sereno das suas raízes que se entrelaçavam nas profundezas da floresta. Desde criança, aprendera a sentir a terra não apenas como um recurso, mas como uma companheira, uma entidade viva que compartilhava com os Kaldórios os segredos e sabedoria que o mundo moderno já esquecera. A aldeia de Kaldor, com seus rituais e práticas, mantinha esse vínculo sagrado, protegendo tanto a floresta como a si mesma.
Mas o que Lyra não sabia, naquela época, era que o equilíbrio que ela, e os seus, tanto zelavam estava prestes a ser quebrado. A harmonia que os Kaldórios preservavam com a natureza estava a ser posta à prova. Algo estava a mudar, algo que não podia ser visto a olho nu, mas que a terra começava a sussurrar nos ventos, nas árvores, no fluxo dos rios.
E então, um dia, um estranho apareceu nas bordas da floresta. Não era como os outros viajantes que, ocasionalmente, se aventuravam até às margens da aldeia, à procura de refúgio, respostas ou sabedoria antiga. Ele não vinha em busca de conselhos sobre os segredos da floresta ou de abrigo para descansar. Este homem era diferente. O seu nome era Thalos, e não buscava paz, mas sim riquezas.
Os seus olhos brilhavam com uma intensidade calculista, como se estivesse à procura de algo mais do que simples ouro ou joias. Thalos era um caçador de riquezas, mas não do tipo comum. Ele não se importava apenas com o que a terra podia dar, mas com o que ela escondia, com aquilo que ele acreditava que poderia ser tirado, sem se preocupar com o custo. O seu desejo de posse era como um veneno que começava a corroer os limites do respeito e da harmonia.
E foi assim que, um dia, Thalos chegou à clareira onde as Árvores-Ancestrais se erguiam imponentes e fora do alcance da mão humana. Ele sentia que ali estava o que procurava. Havia ouvido histórias, rumores de uma força inexplicável que emana da terra de Gallen. Para Thalos, isso era uma oportunidade, não uma promessa de sabedoria ou ligação com a natureza. Ele acreditava que o segredo da riqueza estava, de algum modo, enterrado no coração da floresta, e não restaria nada que o impedisse de desenterrá-lo.
Quando Lyra sentiu a primeira ondulação no solo, sabia que algo estava errado. A terra, normalmente silenciosa e suave, estava a vibrar de uma maneira que nunca antes experimentara. Ao seguir a sensação que lhe corria pelas veias, encontrou-se diante de Thalos. Ali estava ele, com o machado na mão, pronto para cortar a árvore que era a chave de toda a vida na floresta. O que ele não sabia, e o que Lyra temia, era que, se ele prosseguisse, não estaria apenas a ferir a árvore, mas a destruir o pacto sagrado que os Kaldórios mantinham com a terra há gerações.
Lyra não hesitou. Aquele homem, com a sua arrogância e a sua sede de riqueza, não sabia o que estava a fazer. Avançou, os pés quase não tocando o chão, tão conectada com a terra que os seus movimentos pareciam fluir com ela.
“Não podes fazer isso”, disse ela, com uma voz calma, mas firme.
Thalos virou-se lentamente, avaliando-a de alto a baixo. “Porquê? É apenas uma árvore. E além do mais, o que está escondido aqui é meu por direito.” Não passas de uma jovem a tentar proteger algo sem valor.”
Lyra manteve-se impassível. “Ela não é apenas uma árvore. Acreditas que cortar este tronco te fará rico, mas não entendes que esta árvore é um pilar de vida. As raízes dela sustentam não só a terra, mas todos os seres que aqui habitam.”
“Histórias para assustar crianças”, zombou Thalos. “Se esta árvore fosse tão especial, por que está aqui, sozinha, sem ninguém para a proteger? Não passas de uma jovem a tentar proteger algo sem valor.”
Lyra deu um passo em frente, colocando a mão na árvore. “Ela não está sozinha. A terra inteira está com ela. Mas talvez não me acredites. Permite-me que te mostre o que significa realmente viver a terra.”
Antes que Thalos pudesse reagir, Lyra fechou os olhos e murmurou palavras numa língua antiga. O solo sob os pés de Thalos começou a vibrar levemente. Ele deu um passo atrás, mas as raízes da árvore começaram a emergir, envolvendo os seus tornozelos como serpentes vivas. O caçador tentou libertar-se, mas cada movimento parecia prender-se ainda mais na terra.
“O que estás a fazer?” gritou ele, o medo agora visível nos seus olhos. “Liberta-me!”
Lyra abriu os olhos, e o seu olhar parecia conter as cores e as profundezas da floresta. “Não estou a fazer nada, Thalos. É a terra que fala contigo agora. Ela sente o teu desprezo, a tua ganância. Tu tiras, mas nunca devolves. A terra quer que saibas o que significa ser ignorado e ferido.”
As raízes apertaram-se suavemente, o suficiente para imobilizar Thalos, mas sem causar dor. Ele sentiu o chão pulsar debaixo dele, como se tivesse um coração próprio. A respiração dele acelerou, mas aos poucos foi forçado a acompanhar o ritmo sereno do pulsar da terra. Sentiu, pela primeira vez, algo que nunca imaginara: um fluxo de energia que o conectava a tudo à sua volta.
Lyra inclinou-se ligeiramente. “Estás a ouvir? As folhas nas árvores? O curso dos rios? Tudo isto está ligado. Quando feres a terra, feres-te a ti mesmo.”
Thalos fechou os olhos, incapaz de lutar contra a calma que agora o invadia. As suas memórias de destruição e avareza passaram pela sua mente como sombras, deixando-o envergonhado. Cada pensamento de conquista parecia vazio, e ele sentiu o peso do que tinha procurado até ali. A conexão com a terra parecia afastá-lo do egoísmo que o consumira até então. Com a voz embargada, sussurrou, quase inaudível: “Eu… não sabia.”
As raízes começaram a soltá-lo, movendo-se de volta para o solo, mas ele ficou ali por um momento, como que absorvendo o peso da revelação. Lyra permaneceu em silêncio, observando-o com uma expressão neutra, até que finalmente falou. “Agora sabes. A escolha de mudar é tua.”
Thalos deixou a floresta, mas a mudança dentro dele não foi instantânea. Durante algum tempo, as lembranças do ouro e do poder ainda o acompanhavam, mas gradualmente começou a perceber o vazio dessas ambições. O desejo de conquistar o mundo exterior foi dando lugar a uma busca mais silenciosa e profunda: entender e respeitar a terra de uma forma que nunca tinha considerado.
Aos poucos, Thalos passou a viajar, tentando viver como os Kaldórios — a sentir o pulso da terra, a acompanhar o seu ritmo, a aprender o que ela tinha a ensinar. Essa transformação foi um processo lento, uma reflexão constante sobre o que realmente importava. Em cada vila por onde passava, contava a história da Floresta de Gallen e da lição que aprendera com Lyra e a terra. A cada relato, ele compreendia um pouco mais sobre si mesmo e sobre a verdadeira reconexão que procurava.
E, na aldeia de Kaldor, a vida continuou, imutável e constante. Lyra e os outros habitantes da aldeia mantiveram a sua harmonia com a terra, não como conquistadores, mas como seus filhos. Pois sabiam que, quando se vive a terra, ela nunca falha, e aqueles que a respeitam serão sempre parte de algo maior.
Beatriz Sousa, 11.º C (EBSPL)
Nuvem de Alice
Duzentos e setenta e cinco dias. É o tempo que o mundo levou para se tornar irreconhecível. Ao olhar pela janela daquilo a que chamo quarto, deparo-me com a realidade que vejo todos os dias: um ar quente e um nevoeiro intenso de cor laranja. O cheiro a queimado e o calor são sufocantes. Ouço as sirenes ensurdecedoras dos bombeiros enquanto estes passam velozmente pela minha janela, certamente se dirigindo a um dos milhares de fogos que atingem Portugal e o mundo inteiro neste momento:
– Não consigo mais viver nesta realidade! Faz mais de duas semanas que perdemos a nossa casa. Mas quando é que este pesadelo vai acabar?
Ouço passos lentos e suaves a entrar no quarto, que só podem ser da minha mulher, Alice.
– Receio que nunca, Manuel… Pelo menos enquanto as pessoas continuarem a aceitar passivamente aquilo que está a acontecer, nada irá mudar. Lamentar não nos vai servir de nada… Temos que agir ou vamos queimar todos! – disse ela.
Ela tem razão, eu sei disso. Milhares de alertas, sobre o colapso do nosso planeta, surgiram nas notícias todos os anos antes de a situação deteriorar-se por completo. Sempre achei que aqueles títulos de notícias não passavam de hipérboles, destinadas a causar medo aos leitores como a media inúmeras vezes faz. Nem eu nem a maioria das pessoas percebemos a gravidade do assunto:
– Como é que eu fui capaz de deixar isto acontecer? – mal consigo acabar a frase, sinto um arrepio pelo meu corpo e os meus olhos a tornarem-se lagos.
– Não te sintas culpado, a responsabilidade é de todos nós!- diz ela enquanto agarra a minha mão e me consola.
A minha mente acalma ao sentir o seu delicado e acolhedor toque. Alice sempre foi uma mulher forte e determinada, mas a sua doença incapacitante impediu que ela progredisse na sua vida profissional. Conheci-a quando andava na faculdade, tornei-me engenheiro florestal enquanto ela sonhava em tornar-se uma renomada arquiteta. No entanto, o seu estado de saúde impediu-a de trabalhar. Desde então, eu trabalho numa empresa chamada Plantae que se foca no estudo e na proteção das áreas florestais de Portugal, enquanto a minha mulher trata dos afazeres básicos da nossa casa, ou melhor, daquela que foi, outrora, a nossa casa.
Recomponho-me e saio de casa em direção à empresa. O caminho, embora curto, parece interminável enquanto a minha mente se enche de pensamentos frenéticos.
Mal chego à empresa, sento-me na minha secretária e ligo o computador para começar a trabalhar. Basta abrir a internet para ser bombardeado pelas notícias que correm por todo o lado: incêndios e mais mortes.
– Chega! Isto não pode continuar assim! – digo para mim mesmo.
Saio do meu escritório e caminho com passos rápidos, mas ao mesmo tempo pesados, pelos corredores da empresa. Bato nas portas das restantes salas enquanto digo repetidamente:
– Todos para a sala de reuniões agora!
A sala de reuniões começa a encher até ao ponto de já não haver sequer sítios onde os funcionários se podem sentar. Têm todos uma expressão de intriga e confusão nas suas faces. Olham inquietamente uns para os outros tentando decifrar o que está prestes a acontecer. Decido então começar o meu discurso:
– Temos de acabar com isto. Não aguento mais este sofrimento de ver a Terra a morrer. As áreas florestais estão cada vez mais reduzidas e estamos próximos de presenciar o fim do nosso planeta.
Salvador, grande companheiro e experiente meteorologista, levanta-se indignado e diz:
– Já estou farto de ouvir essa conversa que não leva a nada! Sempre a dizerem que temos de resolver esta situação mas nunca ninguém se mexe para o fazer, ou melhor, ninguém sabe o que fazer!
– Por isso mesmo, nós como uma empresa repleta de mentes brilhantes conseguimos fazer alguma coisa – respondo.
Segue-se um momento de reflexão, é como se conseguisse ouvir a mente de Salvador a descodificar o que lhe foi dito, quase como se tal ideia nunca lhe tivesse passado pela cabeça.
No fundo da mesa de reuniões vejo Helena, uma das novas engenheiras químicas da empresa, a levantar-se do sofá onde estava tão acomodada até ao momento.
– Eu penso ter uma ideia…
Os olhos de todos dirigem-se rapidamente em sua direção, todos eles com um olhar brilhante e esperançoso. Mesmo começando a sentir um pequeno nervosismo, Helena prossegue:
– Tenho andado a projetar uma possível máquina que, com compostos químicos específicos, é capaz de gerar uma grande nuvem fortemente condensada. Se conseguirmos avançar com ela, acredito que juntos poderemos expandir a capacidade da máquina, de modo a fazer chover no mundo inteiro. Mas relembro, isto é apenas um protótipo que ainda não saiu do papel, não tenho sequer certeza se será capaz de resultar.
Seguem-se murmúrios pela sala inteira mas sabemos que não temos opção além de tentar. Quando todos se acalmaram e retomaram a atenção, digo:
– Temos de tentar, penso que não temos melhor opção. Quero que todos os peritos da área se juntem no laboratório de química.
Após horas de trabalho, finalmente conseguimos organizar o nosso trabalho, que levará cerca de duas semanas para ser concluído. Estou a conduzir para casa extremamente aliviado enquanto penso no entusiasmo que Alice vai sentir quando lhe contar tudo o que aconteceu no dia de hoje. Chego finalmente a casa, pouso as chaves na entrada e chamo por Alice:
– Alice, nem sabes o que tenho para te contar!
Longos segundos se passam sem resposta. Vou em direção à sala mas não há sinais de Alice. Ao entrar no nosso quarto encontro-a, extremamente pálida, deitada na nossa cama. Sento-me ao seu lado e suspiro. O que mais temia está a acontecer… Alice está cada vez mais fraca. Não a chamo novamente. Deixo-a dormir, deito-me ao seu lado e deixo que o sono me leve.
Quando dou por mim já se passaram duas semanas e estou prestes a sair de casa para ir para a empresa. Pego nas chaves de casa e sinto a presença de Alice atrás de mim, viro-me em sua direção e digo:
– É hoje que tudo acaba.
– Eu vou contigo! – exclama Alice. Não me parece de todo uma boa ideia, é perigoso e a doença dela está cada vez pior. O médico disse estritamente para ela ficar em casa de repouso. No entanto, a expressão dela diz-me que não importa o que eu faça ou o que eu diga…Ela vem comigo.
– Alice…- digo com esperança que ela mude de ideias.
– Não adianta, Manuel. Eu vou.
Entramos no carro e pomo-nos a caminho. Alice passa a viagem toda a olhar fixamente pela janela. Não consigo desvendar o que vai na sua mente, mas o meu instinto diz-me que algo está mal. Somos os últimos a chegar à sala de reuniões, onde já estão todos reunidos em volta da máquina. Ainda não temos um nome para ela, é o assunto menos importante que temos de tratar neste momento.
– Estamos prontos – afirma Helena.
– Sugiro que o façamos na floresta. É uma área remota e caso algo aconteça, o melhor é que mais ninguém esteja por perto além de nós. Não podemos arriscar fazer vítimas – diz Salvador.
– Certo… Então apenas eu o Salvador e a Helena vamos fazer isto – digo.
– Eu também vou! – interrompe Alice. Não a posso contrariar, vejo a expressão de determinação no seu rosto.
Dirigimo-nos para a carrinha da empresa. A floresta para a qual nos deslocamos é uma das poucas que ainda não ardeu e situa-se a cerca de trinta minutos da empresa. Foi a meia hora mais longa, dolorosa e angustiante da minha vida. Caminhamos pelo meio da floresta. Só paramos quando as solas dos nossos pés começaram a latejar de dor. Abrimos o terreno e preparamos a máquina. Enquanto Helena e Salvador arranjam e analisam os cabos, vejo Alice sentada sobre um tronco caído de uma árvore enquanto vislumbra uma pequena flor já murcha. Se eu pudesse, sacrificava tudo o que tenho para ler o que lhe passa pela mente. Ultimamente tem andado tão distante e fechada para o mundo. Eu sei que estou a fazer a coisa certa mas não consigo perceber de onde vem este aperto que sinto no meu peito. É quase como se o universo me estivesse a tentar dizer algo.
– A máquina está pronta para ser ligada – afirma Helena.
– Chegou a hora – digo, suspirando.
Protegi-me abraçado a Alice atrás de uma árvore a poucos metros da máquina. Salvador está protegido atrás do tronco de árvore caído onde outrora Alice estava sentada e Helena está próxima da máquina, pronta para a ligar. Dou ordens a Helena e ela liga a máquina rapidamente, correndo para a beira de Salvador. Poucos segundos depois, um grande estrondo se ouve e uma enorme ventania se levanta na floresta. O vento fez com que um dos cabos que estavam conectados ao motor da máquina se soltasse, o que fez com que o vento começasse a diminuir:
– Tenho de o reconectar para o plano funcionar – digo, enquanto me dirijo em direção à máquina.
Sinto alguém a puxar-me fortemente pelo braço o que me faz desequilibrar e cair na terra. Quando ergo o meu olhar do chão, vejo Alice a reconectar o cabo. Quando o cabo entra novamente em contacto com o motor, ouve-se um forte rugido e a ventania ergue-se novamente levando Alice consigo. Alice é largada pelo vento a cerca de dez metros da máquina e cai inconsciente. Uma enorme tempestade se forma, trazendo uma chuva intensa como nunca antes vista. Olho para o céu, tomado por nuvens cinzentas sem qualquer resquício de azul ou do sol. Levanto-me e corro até Alice.
– Alice, por favor, fala comigo! – grito, segurando a sua cabeça com as mãos trémulas.
Não recebo nenhuma reação ou resposta. Pego em seu braço e percebo que Alice já não tem pulsação. Sinto um aperto enorme no peito que me deixa sem ar, enquanto a chuva se mistura com as minhas lágrimas. Alice sacrificou-se por mim, por todos nós, pelo planeta inteiro. Salvador e Helena estão de pé atrás de mim, sem saber o que fazer. Não tenho outra vontade senão ficar ali – a chorar por Alice como se o seu nome estivesse gravado em cada lágrima, carregando o peso de uma ausência que parece levar consigo o ar, a terra, e o próprio sentido de existir.
Dez dias se passaram desde que a máquina foi ativada e a chuva caiu. O milagre da chuva trouxe a esperança que todos acreditavam estar perdida. Rios voltaram a correr, florestas voltaram a respirar e as chamas que consumiam tudo por onde passavam foram extintas. Estou sentado num estúdio de televisão. O jornalista à minha frente ajusta os papéis, mesmo não precisando deles. É óbvio que ele quer perguntar aquilo que todos querem saber.
– Antes de mais, Manuel, quero agradecer em nome de todos. Aquilo que tu e a tua equipa fizeram foi extraordinário. Sem vocês não estaríamos aqui hoje. Mas a pergunta que não quero calar é: como se chama esta máquina que salvou tantas vidas?
– Nós demos-lhe o nome de…Nuvem de Alice.
O jornalista olha-me com uma expressão confusa. Claramente ele não consegue perceber o significado deste nome. Eu estou pronto para explicar.
– Chama-se Nuvem de Alice porque, sem ela, nada disto seria possível. Ela foi a única que nunca desistiu, mesmo quando nós já tínhamos perdido a esperança. Alice sacrificou-se para que esta máquina funcionasse. Para que chovesse. Para que o nosso planeta tivesse uma segunda oportunidade. Esta chuva que nos salvou é dela.
Por fim, o jornalista agradece, mas não ouço o que ele diz. O estúdio explode em aplausos, mas mesmo isso me parece distante. Só consigo pensar na floresta, na chuva a cair e no nome de Alice, que agora vive em cada gota de chuva.
Mafalda Nunes, 12.º A (EBSPL)
Na quietude do corpo
Num silêncio inquietante, no meio de um jardim sereno, desabrocham pequenas larvas. Logo após nascerem, elas ergueram-se em sintonia e banharam-se nos raios de sol que penetravam as folhas das árvores daquele jardim. Quando observaram a sua periferia, foram galardoadas com uma vista magnífica. Nascer num sítio tão precioso como aquele era considerado um privilégio. O jardim estava repleto de vida, as cores irradiavam das belas flores que povoavam aquela zona.
Os animais coexistiam em harmonia, cada um servindo uma parte crucial para a vida na Terra. As larvas urgiam para completar a corrida mais importante das suas vidas: a metamorfose. Um processo meticuloso que envolvia uma transformação megalómana. Tal processo implicava que o animal pós-embrionário fosse sexualmente maduro e tivesse um grande número de energia guardada no seu corpo. A metamorfose era uma transformação rápida e conspícua que interligava a vida de uma larva com a de um ser extraordinário, a borboleta.
Durante os seus percursos, as larvas entreajudam-se para todas atingirem a proeza de alcançar a fase mais importante das suas vidas. No meio da sua grande corrida, havia uma larva que se distinguia do resto. Essa larva era curiosamente diferente da nuvem. O seu corpo tinha uma tonalidade mais escura do que o resto das suas irmãs. O verde-esmeralda deslumbrante que o seu corpo irradiava destacava-se no meio da natureza. Porém, essa larva era mais fraca e quieta do que as outras. Movia-se com grande dificuldade e mal conseguia comer. Vendo as outras larvas avançarem no grande desafio, ela só se sentia mais fraca e desanimada.
Após longas quatro semanas de um esforço incansável e desgastante, a larva finalmente começou o processo de metamorfose. As suas irmãs prosperavam naquele ecossistema, era impressionante como um animal tão pequeno como este podia superar e sobreviver, mesmo com uma estatura tão sensível. A minúscula larva, agora consideravelmente maior do que quando nasceu, preparava-se para a transformação, construindo um casulo com uma estrutura frágil e pobre. A falta de nutrientes refletia-se no seu corpo frágil, e os seus esforços pareciam ser em vão. Ao longo do tempo, as outras larvas evoluíram, transformando-se em crisálidas. Esta etapa era bastante desprovida de beleza, mas, uma vez superada, as borboletas emergiam com um aspeto magnífico. A pequena larva estava situada num processo muito mais lento do que as suas irmãs. A falta de alimento e o seu desenvolvimento mais frágil refletiram-se neste processo. Quando as suas irmãs saíram dos casulos, as novas borboletas levantaram voo, preenchendo o jardim com cores vibrantes. Elas estavam agora a cumprir o seu papel na natureza, tornando o mundo mais bonito e mágico. No entanto, a pequena larva, quando finalmente completou a metamorfose, deparou-se com um grande problema. Quando tocou com os seus membros no solo e se virou para olhar para trás, viu que não tinha as suas belas asas. A borboleta nascera sem uma das suas características principais. Ela decidiu esconder-se para não dar nas vistas. A vergonha e a tristeza tomaram conta de si, e, ao olhar para as suas irmãs, começou a acreditar que era inútil. Como poderia ser uma borboleta sem asas? Para ela, parecia uma realidade impossível de aceitar.
Durante dias, a borboleta ficou nas sombras, a refletir sobre o que perdera e o que se tornara. Só saía à noite para se alimentar, evitando os outros. Pensava na sua função, no seu valor, e não conseguia compreender como poderia ainda ser parte do jardim, com a sua aparência imperfeita. A comparação com as outras borboletas, tão belas e graciosas, fazia-a sentir-se incompleta, como se o seu propósito na vida fosse em vão. Ela repetia para si mesma: “Uma borboleta sem asas não tem valor. Sou um ser sem propósito.”
No entanto, algo começou a mudar. Durante as suas andanças solitárias, a pequena borboleta começou a ajudar as outras criaturas do jardim. A sua habilidade de observar os pormenores e de ver além do óbvio foi sendo útil. Ela ajudou as formigas a encontrar o caminho certo para o formigueiro, orientou os caracóis a evitarem os predadores e até ajudou as abelhas a encontrar novas flores para polinizar. Apesar de não poder voar, ela usava a sua visão aguçada e o seu conhecimento para ensinar os outros e reorganizar o caos que se instalara no jardim.
Com o tempo, a borboleta foi ganhando respeito e, aos poucos, foi percebendo que a sua verdadeira força não estava nas asas, mas na sua capacidade de adaptação, na sua inteligência e na sua vontade de ajudar os outros. Embora se sentisse incapaz de voar, encontrou uma nova maneira de contribuir para a harmonia do jardim.
Certa noite, enquanto passava pelo campo de flores, encontrou uma das suas irmãs, uma borboleta radiante, que a olhou com um brilho de surpresa nos olhos. As duas começaram uma conversa longa e significativa. A borboleta que agora tinha asas não reconheceu de imediato a sua antiga companheira, mas, depois de ouvir a história da pequena borboleta, percebeu que ela estava a passar por um processo muito mais profundo do que a simples transformação física. A borboleta sem asas estava, na verdade, a encontrar um novo papel no mundo, e isso era muito mais valioso do que qualquer beleza superficial. As suas irmãs, que a tinham procurado durante tanto tempo, estavam preocupadas com ela. Elas não a queriam perdida, mas a amavam pela sua essência, não pela sua aparência.
Após a conversa, a pequena borboleta decidiu voltar ao jardim, mas não com o mesmo olhar. Quando chegou, percebeu que as coisas haviam mudado. O jardim estava dividido, os animais viviam em conflito e as plantas estavam a morrer devido à falta de harmonia. A presença das borboletas, embora tivesse sido fundamental, já não era suficiente para manter o equilíbrio. A pequena borboleta olhou ao redor e viu o que precisava ser feito. Sem asas, sem o seu glamour, ela começou a reunir as criaturas do jardim. Conversou com as formigas, as abelhas, os pássaros e até as árvores. Ensinou-lhes que a verdadeira beleza não se encontra apenas no físico, mas na capacidade de união, de compaixão e de cuidar uns dos outros.
Com o tempo, a pequena borboleta conseguiu restaurar o jardim, não com o seu voo, mas com a sua sabedoria e com a sua capacidade de conectar os seres vivos. Mas o processo de transformação do jardim não terminou ali. Embora a harmonia estivesse a ser restaurada, a pequena borboleta sabia que algo ainda faltava. Ela compreendeu que, por muito que os animais e plantas do jardim trabalhassem juntos, havia algo mais profundo que os conectava. Era a natureza, a energia do próprio jardim, a essência da vida que todos partilhavam, independentemente da forma ou aparência. Ela começou a transmitir aos outros seres que a verdadeira beleza não é visível apenas aos olhos, mas sente-se na alma.
Agora, a pequena borboleta, que estava há tanto tempo se escondendo, era uma figura respeitada, não pela sua aparência, mas pela sua força interior. Em breve, todas as borboletas, com asas ou sem asas, começaram a olhar para ela como uma líder. Ela ensinava a todos que a verdadeira força de um ser não está nas suas características físicas, mas no modo como ele se conecta com o mundo ao seu redor e como contribui para o bem-estar de todos.
Certo dia, quando menos esperava, uma brisa suave atravessou o jardim. As árvores, as flores, os animais e até o vento pareciam celebrar juntos. A pequena borboleta sentiu um calor reconfortante no seu corpo e, para sua surpresa, um par de asas começou a se formar. Não eram as asas que ela tinha imaginado serem perfeitas, mas eram suas, únicas e especiais. Elas eram diferentes de todas as outras borboletas, mas elas refletiam a sua jornada, o seu crescimento e, acima de tudo, a sua verdadeira essência. Quando as asas estavam completamente formadas, a borboleta levantou voo. Não porque precisava disso para encontrar o seu propósito, mas porque agora sabia que a beleza verdadeira era, na realidade, um reflexo do coração e da alma de cada ser. E assim, a pequena borboleta voou pelo jardim, não apenas como mais uma borboleta colorida, mas como um símbolo de resiliência, sabedoria e transformação.
O jardim, que antes estava dividido, floresceu novamente com uma nova energia. A natureza recuperou a sua harmonia, mais rica e profunda do que nunca. E a borboleta, agora com asas que carregavam toda a sua história, soube que, por mais difícil que fosse a jornada, sempre havia algo de belo para se aprender, algo valioso a ser compartilhado. No fundo, o que realmente importava não eram as asas, mas a capacidade de se transformar e de ser algo mais do que aquilo que o mundo esperava de nós.
Pedro Nunes, 11.º C (EBSPL)





